A guerra cultural do Vox

Um dos motivos do sucesso desta força política é o velho conflito cultural entre uma visão progressista da sociedade e o seu contraponto tradicionalista, que parecia superado um pouco por todo o mundo ocidental.

As eleições legislativas do passado dia 28 de Abril traduziram-se na recomposição da direita espanhola. O PP conheceu uma pesada derrota ao perder mais de metade dos seus deputados, sofrendo forte erosão quer ao centro, para o Ciudadanos, quer à direita, para o Vox.

Se a mácula da corrupção explica em parte o enfraquecimento do partido, que até há poucos anos desempenhava o papel de federador das direitas espanholas, não constitui este o único motivo para compreender o fenómeno, nomeadamente a sangria de votos para a direita radical que, em escassos dois anos, passa da irrelevância para a condição de quinta força política.

O Vox ascende num contexto de crise da integridade territorial de Espanha, ameaçada pelo independentismo golpista na Catalunha. Apesar da firmeza com que o governo popular reagiu à sedição catalã, fazendo uso de todos os meios de autoridade legítima, tal não impediu que muitos espanhóis se sentissem atraídos pelos radicais. A questão catalã não foi, portanto, a causa única do crescimento do Vox.

Com efeito, um dos motivos do sucesso desta força política é o velho conflito cultural entre uma visão progressista da sociedade e o seu contraponto tradicionalista, que parecia superado um pouco por todo o mundo ocidental, com o triunfo da primeira sobre a segunda, mas que ressurge pela mão dos movimentos de direita radical, em franco crescimento nos últimos anos.

Em Espanha, país de fortes raízes católicas e cuja mudança de regime não ocorreu por via revolucionária mas por pacto, os mais conservadores entre os conservadores não foram remetidos para a total obscuridade, como sucedeu, por exemplo, em Portugal. Embora perdendo dinamismo e apelo popular desde, pelo menos, a década de 60, cedendo espaço a uma direita modernizadora e tecnocrática, eminentemente pragmática, mais apegada aos resultados do que aos princípios ideológicos, esta franja da direita foi-se acomodando à democracia e ao pluralismo, mantendo, porém, reserva mental.

Por seu turno, a progressiva adesão da direita democrática espanhola aos ideais liberais, que Aznar definiu como “a única ideologia com direito de cidadania no mundo contemporâneo”, assente sobre a matriz da liberdade individual e a refutação da filiação no franquismo, encarado, ainda segundo o antigo líder popular, como um “largo período de excepção”, antes reclamando a herança “da tradição liberal e constitucional espanhola” de oitocentos, afastou da agenda política da direita quer a defesa dos preceitos morais tradicionais, quer a visão mítica e heróica da história sustentados pelos sectores radicais.

Dando-se por muito tempo como vencidos, mas não convencidos, os radicais ressurgem, assim, no contexto da crise da unidade do Estado, como foi referido, mas também na sequência do empenho dos socialistas espanhóis em legislar em matéria de costumes, desafiando a moral tradicional e as instituições que a encarnam e de promover um processo de revisão da história recente do país, quebrando o consenso forjado na transição de não julgar o passado franquista.

Acusando uma espécie de fadiga do progressismo e entendendo que a direita moderada mostra tibieza na defesa do que consideram ser os autênticos valores da direita espanhola – moderados que Santiago Abascal define, por esse motivo, no seu tom populista, de “derechita cobarde” – os radicais entenderam, motivados também pelo crescimento de movimentos congéneres em quase todas as democracias, ser este o momento de assumir voz própria. Fenómeno recente na política espanhola, o Vox é, não apenas mas também, resultado da peleja antiga entre tradição e modernidade.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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