A exposição mediática e televisiva da nossa vida contemporânea elevou a narrativa a uma posição de poder e de influência sem precedentes, porque passou a ser mais relevante a forma como se descreve um facto do que a sua compreensão efectiva à luz do rigor da História, enquanto ofício científico.
Uma perspectiva histórica procura, sobretudo, explicar o porquê de um determinado acontecimento ou de um facto histórico relevante. Neste sentido, a História procura averiguar sobre os antecedentes, os actores e as motivações para o desencadear de um determinado acontecimento, mesmo reprovável moralmente.
Com efeito, o historiador navega nos arquivos e nos documentos que possam ser as suas fontes e servir, ainda, de uma luz explicativa do sucedido. Mas, a História não possui nenhum poder de verdade absoluta ou de narrativa única, estando sempre sujeita à subjectividade.
Não consegue, assim, influenciar a sociedade de massas, onde a simplificação da narrativa, através de vídeos curtos nas redes sociais, tem mais alcance do que uma análise rigorosa, informada e complexa.
A narrativa é um instrumento de poder porque tem a capacidade de controlar os factos e consegue, facilmente, instrumentalizar a interpretação dos acontecimentos, visando controlar o jogo político.
É, por isso, importante apresentar uma perspectiva limitada e simplificada, sem nenhum grau de rigor ou condizente com os dados, que possa se encaixar num processo de idealização da História, onde os nacionais são sujeitos face aos outros – sempre os estrangeiros –, que surgem reduzidos a uma categoria de subalternizados.
Consegue-se, assim, um inimigo político que possa ser vislumbrado como o responsável pelo fracasso económico, social e político.
A narrativa estabelece, assim, um distanciamento da História, porque não almeja um porquê, mas, sim, um como expor um determinado facto e o que contar.
Este recorte histórico visa, no essencial, seduzir e manipular os acontecimentos, por um lado. Por outro, quer substituir a História através de uma linguagem semiótica de negação da verdade através de uma perspectiva da liberdade de interpretar de acordo com um critério da manipulação política.
Este objectivo será, certamente, mais fácil de ser alcançado com o desenvolvimento da inteligência artificial, que reduz, drasticamente, a fronteira entre verdade e não-verdade, bem como entre o real e o artificial. Entraremos, assim, na sociedade da artificialidade, onde a mentira deixará de servir como um critério.



