Há um momento em A Ilíada em que Heitor percebe que Tróia não cairá por falta de coragem, mas por excesso de confiança numa ordem antiga que já não responde ao presente. O inimigo não mudou apenas de rosto. Mudou de lógica. A tragédia não nasce da força do outro, mas da recusa em aceitar que o mundo deixou de funcionar como antes. A Europa vive hoje esse exacto instante “heitoriano”, ainda com os olhos presos a uma parceria estratégica que já não existe.
Durante décadas, a relação transatlântica foi mais do que uma aliança. Foi uma arquitetura moral, política e militar assente na ideia de que o poder americano, por mais duro que fosse, vinha embrulhado numa noção de interesse comum, de previsibilidade e de compromisso entre aliados. Tarifas existiam, tensões também, mas nunca sob a forma de intimidação sistemática, nunca como instrumento de humilhação política. Como bem lembrou Keir Staremer, as grandes alianças não se constroem com bullying económico nem com ameaças públicas. Constroem-se com regras, respeito e previsibilidade. Mas será que o mesmo aceita que esse mundo acabou?
Com Donald Trump, a relação entre os Estados Unidos e a Europa deixou de ser uma parceria estratégica para se tornar numa relação transacional, desequilibrada e deliberadamente coerciva. A Europa deixou de ser vista como aliada e passou a ser tratada como concorrente a disciplinar ou mercado a capturar. Não se trata de retórica. Trata-se de método. Tarifas, ameaças comerciais, chantagem tecnológica e instrumentalização da segurança coletiva tornaram-se ferramentas normais da política americana face à União Europeia.
O objetivo é claro e raramente disfarçado. Washington já não quer uma Europa politicamente coesa, economicamente autónoma ou estrategicamente relevante. Quer uma Europa funcionalmente dependente. Um grande espaço de consumo para produtos americanos, um mercado cativo para tecnologia americana, um satélite comercial sem ambição geopolítica própria. Uma Europa que compre, mas não decida. Que siga, mas não proponha. Que consuma, mas não construa alternativas.
É por isso que esta Casa Branca olha com desconfiança visceral para qualquer tentativa europeia de diversificação estratégica. O acordo com o Mercosul, apesar de finalmente assinado, será inevitavelmente alvo de pressão americana. Não por razões ambientais ou laborais, mas porque representa uma Europa que ousa pensar para lá do eixo atlântico. O mesmo vale para o Indo-Pacífico, para a aproximação a África, para qualquer política comercial que não passe pelo filtro de Washington. O recado é simples. A autonomia europeia é tolerada apenas enquanto retórica. Nunca enquanto prática.
Também no plano da segurança, a erosão é evidente. A Nato não está formalmente morta, mas encontra-se suspensa numa ambiguidade perigosa. O compromisso automático de defesa coletiva foi substituído por uma lógica condicional, quase contratual, em que a proteção depende do saldo comercial, do alinhamento político e da utilidade circunstancial. A ideia de solidariedade estratégica foi substituída pela contabilidade.
Para a Europa, o erro fatal seria continuar a fingir que tudo isto é passageiro, que se trata apenas de um desvio de estilo, de um interregno turbulento antes do regresso à normalidade. Não é.
Estamos perante uma mudança estrutural da política externa americana. Mesmo quando Trump sair de cena, o precedente ficará. A desconfiança ficará. A perceção de que a Europa pode ser pressionada, dividida e explorada ficará.
É por isso que este momento exige algo que a União Europeia tem evitado durante demasiado tempo. Uma decisão política consciente de se afirmar como projeto de poder. Não no sentido militarista ou agressivo, mas no sentido mais profundo da palavra poder. A capacidade de decidir, de escolher, de proteger os próprios interesses e valores sem pedir autorização.
Isso implica investimento sério em defesa europeia, sim. Mas implica sobretudo uma revolução mental. A Europa tem de deixar de se ver como espaço regulatório e passar a ver-se como ator político. Tem de compreender que a sua força não está apenas no mercado interno, mas na capacidade de o usar estrategicamente. Que o comércio não é neutro. Que a tecnologia é soberania. Que a energia é geopolítica. Que a segurança não se subcontrata indefinidamente.
A resposta europeia ao bullying americano não pode ser apenas técnica ou reativa. Não pode limitar-se a mecanismos de compensação ou a comunicados diplomáticos cuidadosamente redigidos. Tem de ser um gesto político claro, visível e irreversível. Um sinal de vontade. A vontade de existir como projeto com futuro, e não como apêndice confortável de uma potência externa cada vez mais imprevisível.
A Europa não precisa de confrontar os Estados Unidos. Precisa de se libertar da ilusão de dependência eterna. Precisa de falar a linguagem da maturidade estratégica. Cooperar quando os interesses coincidem. Divergir quando não coincidem. Proteger-se quando é atacada.
Construir alternativas quando é bloqueada.
Heitor perdeu Tróia porque lutou como sempre tinha lutado num mundo que já tinha mudado. A Europa ainda tem tempo. Mas esse tempo não é infinito. Ou acorda agora para a realidade de uma relação transatlântica suspensa, condicional e instrumental, ou arrisca-se a descobrir demasiado tarde que o projeto europeu não foi derrotado por forças externas, mas pela recusa em aceitar que a história entrou numa nova fase.
A hora da Europa não é amanhã. É agora.



