A iberização da banca

Com a reduzida dimensão do nosso mercado, a disrupção dos neobancos digitais europeus e os processos de consolidação com bancos espanhóis, caminhamos para uma crescente consolidação ibérica.

Numa entrevista recente a um jornal nacional, o escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte considerou que “é uma anomalia que Portugal e Espanha não sejam um mesmo Estado”, referindo ainda que uma “Federação Espanha-Portugal seria uma potência indiscutível”.

De facto, esse Estado existiu durante sessenta anos, entre 1580 e 1640, quando Portugal e Espanha coexistiram debaixo do domínio filipino, sob o princípio de um rei duas coroas, em que cada uma garantia o seu governo próprio, conservando o pleno exercício dos direitos que lhe eram inerentes enquanto Estado (a realidade foi bem diferente com a crescente submissão dos interesses nacionais a Espanha).

A história, no entanto, foi outra – felizmente dirão os portugueses, infelizmente pensarão os espanhóis –, e em 1 de dezembro de 1640, Portugal tornou-se novamente um Estado independente.

No panorama bancário a realidade é, na verdade, bem diferente, sendo que se assiste a uma onda de fusões e aquisições que podem vir a mudar a face do sistema bancário em Portugal. Esta consolidação, e até o conceito de iberização da banca que tem vindo a ser defendido pela EBA -Autoridade Bancária Europeia, já há muito que vinha sendo aplicado em Portugal.

O Santander adquiriu o Totta (e o Banco Popular), o Bankinter adquiriu a operação portuguesa do Barclays, o Caixa Bank, que detinha uma participação significativa no BPI, adquiriu a totalidade do seu capital, o Abanca ficou com a operação nacional do Deutsche Bank (exceto o segmento de grandes empresas) e assinou um MoU para adquirir o Banco Eurobic, mas acabou por desistir da operação (em 2018 já tinha adquirido o banco Caixa Geral, operação espanhola da CGD). O Bankinter que antes parecia interessado em estudar uma possível aquisição do Novo Banco, parece virar-se agora para o Eurobic.

Em Espanha, onde o número de bancos caiu desde a crise financeira de 55 para 12, assiste-se a um movimento idêntico. A fusão entre o CaixaBank e o Bankia está aprovada e vai criar o maior banco de Espanha (o Santander é naturalmente de maior dimensão, mas é um banco global). Em resposta, o Sabadell estuda a fusão com o Abanca ou o BBVA.

O que é curioso nestes processos de consolidação em Espanha, a concretizarem-se, é que nem vão gerar questões de concorrência, que se mantém em níveis elevados pela entrada no mercado dos novos players digitais, que diluem a concentração e se posicionam como concorrentes reais num mercado aparentemente concentrado.

Em Portugal, com o Eurobic à procura de compradores e a instabilidade no Montepio a gerar desconforto no sistema financeiro, o único dos grandes bancos que estará em condições de se posicionar será o Millennium bcp, que apesar de num primeiro momento ter afastado qualquer estratégia de crescimento por aquisição, poderá, ainda assim, avaliar uma eventual fusão com o Montepio caso exista a necessidade de intervenção neste banco. A Caixa Geral de Depósitos, na verdade o único grande banco verdadeiramente português estará, em princípio, fora deste movimento, a não ser em caso de interesse nacional, o que deixará ainda mais espaço para os bancos espanhóis.

A realidade é que existe hoje uma oportunidade efetiva para os bancos a operar em Portugal ganharem quota de mercado e crescerem por aquisição, num contexto muito semelhante a Espanha, de maior fragmentação do mercado, com os novos bancos digitais europeus a conquistarem mercado.

O que é interessante analisar é que esta conquista de espaço não se materializa numa mudança total de relação dos clientes com os bancos tradicionais, mas sim numa repartição desta mesma relação por várias entidades. O caso dos pagamentos é um exemplo paradigmático. Outro exemplo desta realidade é na chamada “taxa de equipamento”, em que muitos clientes que antes tinham concentrado no seu banco um portefólio de produtos e serviços alargado, agora repartem estes mesmos produtos e serviços por várias entidades, muitas delas 100% digitais.

Que impactos pode a crescente influência dos bancos espanhóis ter no sistema financeiro português e a concentração do poder de decisão em Espanha, de alguns bancos a operar nas duas geografias? Maiores tempos de decisão, uma maior distância em relação aos clientes, o dificultar de alguns processos de decisão, uma maior sensibilidade do sistema financeiro português às incertezas económicas e políticas (e de integridade nacional) de Espanha?

Com a reduzida dimensão do nosso mercado, a disrupção dos neobancos digitais europeus e os processos de consolidação com bancos espanhóis, caminhamos a passos largos para uma cada vez maior consolidação ibérica, para a verdadeira iberização da banca.

Afinal, a federação Portugal-Espanha que não ocorreu no plano político, tenderá a concretizar-se, rapidamente, no plano bancário.

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