A II Guerra Fria?

A História não se repete, é frequentemente dito, mas parece inspirar-se em si mesma, reeditando-se sob novas versões. Espera-se que não seja este o caso mas, se o for, o mundo livre tem que estar preparado para um novo conflito.

Os primeiros meses da presidência de Joe Biden evidenciam, em matéria de política externa, que a nova administração está empenhada em privilegiar as alianças clássicas dos Estados Unidos. Contrariamente aos seus imediatos antecessores, o presidente percebe que os aliados e os adversários de hoje são, no fundo, os de sempre.

Obama tentou, sem grande sucesso, diversificar as alianças, secundarizando os laços com o bloco ocidental; Trump, por seu turno, não tinha qualquer política definida, agindo de forma errática e caprichosa, conforme os humores do momento. Biden, pelo contrário, parece apostado em reabilitar o relacionamento com a NATO e robustecer os laços com o Japão, consciente que está de que a Rússia e a China são os adversários que tem pela frente, não sendo tíbio nas palavras que tem dirigido a estes dois Estados.

A posição de Biden é a resposta à falência da crença de que o mundo, após a queda do império soviético, em 1991, e da integração da China na OMC, dez anos mais tarde, entraria numa fase de paz quase perpétua, concentrado somente no objectivo do crescimento económico, crença que teve os seus fiéis, confiados no fim da História e na capacidade de a “mão invisível” dos mercados travar os ímpetos da mão em punho das refregas entre os Estados.

Abordando a política externa sem optimismos, que o tempo se encarregou de dissipar, Biden não poupa “mimos” aos adversários. Em relação a Putin, não se coibiu de o definir como “assassino” e, no que à China concerne, os representantes americanos presentes na cimeira sino-americana, decorrida no passado mês de Março no Alasca, não foram parcos nas acusações e nas críticas ao seu interlocutor.

Com efeito, a Rússia revela-se ameaçadora, menos pelo seu poderio do que pela sua decadência. País em declínio económico, em crise social e recuo demográfico (só no passado ano terá perdido 700 mil habitantes), é governado com mão férrea por um presidente que, como manobra de distracção do declínio nacional e da natureza cleptocrática do regime, reanimou a sempiterna ambição imperial russa e inventou uma ameaça existencial iminente à nação.

Já a China, país “de passado sangrento e de intenções obscuras” – como a definiu Margaret Thatcher – começa a levantar um pouco o véu com que sempre tem coberto os seus objectivos. Alcançado o estatuto de potência económica, a China revela desejos de se tornar também uma potência política, patente na atitude mais agressiva que vem assumindo no palco internacional.

Tal como a figura de antanho – tão caricaturada entre nós – do burguês enriquecido, que sacrificava parte do seu pecúlio na compra de uma quinta nos arrabaldes e na construção de um palacete na cidade na expectativa do baronato, que lhe garantiria um capital imaterial de prestígio, a China ambiciona tornar-se um país determinante nos grandes assuntos do mundo, mesmo que com algum sacrifício do seu crescimento. Em suma, pretende, doravante, não ser somente vista como a “fábrica do Mundo”, mas também, e novamente, como o “Império do Meio”.

Biden revela-se consciente de que pode ter pela frente uma segunda Guerra Fria em embrião. E parece disposto a comandá-la, se a não conseguir evitar, o que dependerá necessariamente da vontade das demais partes. A História não se repete, é frequentemente dito, e com razão, mas parece inspirar-se em si mesma, reeditando-se sob novas versões. Espera-se que não seja este o caso mas, se o for, o mundo livre tem que estar preparado para um novo conflito.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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