A Índia hoje

A Índia, ao contrário de outros países, nunca se empenhou na industrialização como primeira e principal etapa de crescimento da economia. Isto apesar do papel relevante de indústrias como a química e a farmacêutica.

A Índia de hoje é a Índia de Narendra Modi. A que, objectivamente, o elegeu primeiro-ministro em Maio de 2014 e de novo em 2019. Pela primeira vez, um Governador de um Estado sobe a tão alto cargo na Índia. Com Modi há uma mudança de trajectória política, do centro-esquerda para o centro-direita a escorregar para uma direita ultranacionalista e musculada.

Esta eleição “arruma” o Partido do Congresso, praticamente no poder desde a independência e que, após Indira Gandhi, caíra num imobilismo político (alianças alargadas de governação para sobreviver) e em casos de corrupção frequentes.

Apesar da fama de “grande modernizador” que trazia enquanto Governador do Estado de Gujarat, na fronteira com o Paquistão, ideia que tenta passar para dentro e fora do País, a economia da Índia com Modi apresenta taxas de crescimento médias mais baixas (4,2%) que no período 2009/2014 (7%).

Modi, eleito pelo partido nacionalista hindu BJP (Bharatiya Janata Party), tem levantado nos analistas de política internacional, em vários países, sérias preocupações pelas intromissões sucessivas na comunicação social, pelas medidas tomadas em Dezembro último sobre a liberalização dos mercados agrícolas, desprotegendo muitos milhões de camponeses, e ainda pela demasiada protecção à religião hindu e perseguição de outras, com relevo para a muçulmana, aliás seguindo os preceitos do R.S.S (Rashtriya Swaymsevak Sangh), uma organização ultranacionalista, a que Modi esteve ligado desde jovem, defensora da supremacia do povo hindu e da sua religião que tenta impor a toda a sociedade indiana, se necessário pelo recurso à força.

A Índia com Modi, há quem afirme, atravessa um período de “democracia iliberal”, tipo Hungria. Interessante vincar: os EUA e a UE encaravam Modi como persona non grata na sequência dos massacres contra os muçulmanos (mais de 1.000 mortos) ocorridos enquanto Governador, mas, em 2014, face às hipóteses de ser eleito primeiro-ministro “amaciaram” a posição e hoje é o que se vê. A todo o custo, querem fazer as pazes e conquistar um entendimento.

Para os ambientalistas, o novo poder de Modi está a privilegiar o desenvolvimento industrial a qualquer preço. Certamente pensa sustentar o crescimento numa estratégia que nunca foi a da Índia, a industrialização, em detrimento da segurança dos habitantes, numa tentativa de disputar com a China “a fábrica do mundo, como é conhecida.

A Índia, ao contrário de outros países, nunca se empenhou na industrialização como primeira e principal etapa de crescimento da economia. Apesar de sectores industriais de relevo que detém na química e sobretudo na indústria farmacêutica, “a Índia, farmácia do Mundo”, e de grandes multinacionais conhecidas, como a Tata, o Serum Institute, o maior produtor mundial de vacinas, ou o gigante Infosys, a sua base de desenvolvimento assentou na agricultura e nos serviços. A agricultura ainda hoje ocupa mais de 50% da população activa, embora contribua apenas com 17% do PIB.

A propósito da Índia “farmácia do mundo”, diga-se que a Europa é muito dependente de medicamentos produzidos no exterior. A União produz apenas 20% do que precisa. Donde vem o que falta? 43% dos genéricos e 60% das vacinas utilizadas no mundo vêm  da Índia.

Penetrando um pouco nas cadeias logísticas, uma curiosidade: a China fornece grande parte dos princípios activos à India que os transforma em produtos acabados (fármacos) e os põe nos mercados internacionais. E já agora mais uma curiosidade. Os princípios activos fornecidos pela China, em grande parte, são produzidos na província de Hubei, cuja capital é Wuhan, epicentro da pandemia de Covid-19. E apesar da Índia ser “tudo isto” como farmácia do mundo, uma das suas maiores fragilidades é o sistema de saúde. Basta ver o que tem acontecido no tratamento da Covid-19. Uma Índia em total descontrolo.

Índia exportadora de serviços

Os serviços que representam 53% do PIB nem sempre tiveram a mesma composição qualitativa. Os serviços tradicionais (comércio, transportes, administração e defesa) foram os primeiros a deter grande preponderância na década de 1980.

Depois desenvolveram-se os serviços intermédios como o turismo (hotéis e restauração), saúde, educação e, finalmente, a partir de 2000, os serviços modernos surgem em força, i.e., o sector financeiro, as telecomunicações e os serviços às empresas, onde se incluem os que recorrem a tecnologias de ponta, como centros de tratamento de dados, serviços ligados ao audiovisual, cinema e cultura.

Pensamos que para a especialização da Índia neste tipo de serviços terão contribuído um ensino universitário de qualidade (embora com um ensino não universitário deficiente com mais de 1/3 das crianças com elevado grau de analfabetismo) e a conhecida propensão do povo indiano (asiático) para a matemática.

Neste tipo de serviços modernos, a procura externa desempenhou um papel determinante. A Índia detém hoje cerca de 18% da exportação mundial de serviços ligados às TIC e a outros prestados às empresas.

O modelo de desenvolvimento da Índia

O modelo de desenvolvimento da Índia na base dos serviços levantou durante algum tempo a questão da sua sustentabilidade, porque começou a gerar-se uma certa estagnação no campo do emprego e a Índia em elevado crescimento demográfico lança no mercado, a cada ano, milhões de jovens à procura de trabalho. Por outro lado, a indústria também mudou de ciclo e já não detém as características motoras de anos antes.

E aos milhões de jovens que a Índia lança no mercado de trabalho não abundam qualificações a não ser em certos Estados do Sul, por exemplo, onde se situa a “Silicon Valley” indiana – Bangalore.

A Índia, por falta de estratégia coerente e global de desenvolvimento, e por ser um país completamente descentralizado e desarticulado, ou seja, os Estados funcionam de per se, apresenta desníveis abissais em termos de criação de riqueza. Há Estados muito desenvolvidos onde se concentram as capacidades produtivas (materiais e humanas) e são assim muito mais ricos.

Por outro lado, o tipo de gestão é muito diverso de Estado para Estado e os mais bem geridos tornam-se mais atractivos para o investimento.

Até a nível da política esta dualidade é bem notória. O partido BJP é forte a nível do País até pela campanha permanente e intensiva de propaganda que a máquina do governo desenvolve, enquanto a nível dos Estados é bem mais frágil, com resultados políticos e económicos que penalizam o partido do governo.

Temos tentado, nestes últimos escritos sobre a Índia, apontar alguns elementos que nos possam balizar a questão levantada de início: Poderá a Índia tornar-se uma nova China? Que parcerias ajudarão a Índia a trilhar esse eventual caminho?

No próximo artigo, um pouco de carácter comparativo, abordaremos essa realidade a que viemos bater numa perspectiva de alerta: Ásia é Futuro.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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