A indústria automóvel europeia, outrora soberana na produção de veículos a combustão, enfrenta uma encruzilhada dramática. Empurrada por regulamentos ambientais inflexíveis e prazos implacáveis, precipitou-se numa transição energética para os veículos elétricos, mergulhando num cenário de desafios avassaladores. A grande questão é: estará a Europa a abdicar da sua liderança industrial sem garantir as condições para competir com potências emergentes como a China?

Ainda hoje, a indústria automóvel é o maior exportador da Europa e um dos pilares fundamentais da União Europeia, com um superavit comercial superior a 100 mil milhões de euros. No entanto, essa posição está ameaçada. A China, que há mais de uma década investe fortemente nos veículos elétricos, consolidou uma hegemonia avassaladora. Domina mais de 60% da produção global de baterias e controla matérias-primas essenciais, como as terras raras, vitais para as baterias de lítio. Enquanto a Europa luta por alternativas, a China já consolidou a sua infraestrutura, beneficiando de custos de produção esmagadoramente mais baixos.

O fosso tecnológico entre a Europa e a China é uma realidade inegável. Marcas como BYD ou a XPeng expandem-se agressivamente para os mercados ocidentais, oferecendo veículos elétricos tecnologicamente avançados e acessíveis. Em contraste, os fabricantes europeus enfrentam custos elevados, uma dependência crónica de matérias-primas externas e uma infraestrutura de carregamento insuficiente para sustentar a mobilidade elétrica.

A eliminação dos motores a combustão até 2035 coloca a sustentabilidade económica da indústria automóvel no fio da navalha. Durante o século XX, a Europa construiu um ecossistema industrial robusto, responsável por milhões de empregos. Agora, com a aposta exclusiva nos elétricos, fábricas inteiras de motores e componentes enfrentam o risco de encerramento, levando consigo um património de conhecimento acumulado.

Além disso, a aceitação dos veículos elétricos pelos consumidores europeus continua a ser um entrave. O elevado custo de aquisição, as preocupações com a autonomia das baterias e a infraestrutura de carregamento insuficiente geram resistência à eletrificação. Enquanto a China criou um ecossistema eficiente, a Europa precipita-se para um cenário incerto, onde a oferta e a procura seguem caminhos desalinhados.

Apressar a eliminação dos motores térmicos sem assegurar uma produção competitiva de veículos elétricos e seus componentes pode transformar a Europa refém das importações chinesas, impondo um dilema: manter um caminho que ameaça sua independência industrial ou adotar uma transição equilibrada e pragmática que preserve sua competitividade global.

Hoje, este processo não se trata apenas de um desafio passageiro, mas do prenúncio de um desastre iminente. A Europa, à beira de abdicar da sua supremacia num setor vital, sucumbe a decisões políticas que ignoram em absoluto o dinamismo do mercado global. Nessa transformação colossal, a adaptabilidade é imperativa.

Esperemos todos que o Plano de Ação para a Indústria Automóvel, a ser apresentado pela Comissão já em 5 de março, possa cumprir as palavras de Ursula von der Leyen, e se afirme como um garante para que esta nossa Indústria possa continuar a prosperar e a competir com êxito na cena global.