A inevitável queda de Trump?

Os debates presidenciais costumam ser momentos decisivos e, em 2016, o candidato republicano mostrou ser capaz de os rentabilizar a seu favor. Acresce que os Democratas defendem uma maior carga fiscal em favor de uma agenda verde, o que pode afastar o eleitorado.

O ano tem sido marcado pelo impacte da pandemia de Covid-19, que abalou as fundações de equilíbrios socioeconómicos e geopolíticos entre as nações, e tornou-se também num dos fatores que podem desequilibrar a balança no evento eleitoral de maior relevo deste ano.

De facto, as eleições presidenciais norte-americanas em novembro poderão ser as de maior relevância da memória mais recente, capazes de influenciar não só a agenda interna norte-americana – caso da reforma fiscal e impacte de uma reposição de níveis de tributação mais elevados na economia – mas também de suscitar debate internacional em algumas áreas de enorme relevo na agenda geopolítica internacional, entre as quais uma maior regulação do sector tecnológico, as preocupações relacionadas com o sector da saúde e investigação, e também da regulamentação do sector farmacêutico.

A estas questões somam-se os temas de caráter mais societário, como as tensões relacionadas com a discriminação racial ou a gestão das relações comerciais e diplomáticas com a China, que sofreram uma significativa deterioração desde o princípio da pandemia, resultando inclusivamente na estagnação do acordo comercial entre as duas grandes potências da economia mundial.

Nas próximas semanas, as atenções mediáticas estarão centradas nas eleições norte-americanas e na possibilidade do fim da linha para a administração Trump. O candidato democrata Joe Biden lidera as sondagens, e de forma significativa. Contudo, a vantagem tem vindo a encurtar e muitos observadores colocam em cima da mesa a possibilidade de um cenário de impasse nas eleições presidenciais, o que poderá aumentar as tensões num ambiente que, politicamente falando, já se encontra bastante polarizado.

Trump corre atrás do prejuízo novamente. A distância e o contexto são mais complexos

A cerca de seis semanas das eleições, as sondagens refletem o que foi um ano devastador para a administração republicana. O posicionamento inicial relativamente à estratégia de combate à pandemia de Covid-19 e respetiva gestão do confinamento, somado à fragilidade e polémicas em torno da escassez tanto de equipamentos médicos como de resposta sanitária, abriram as primeiras brechas em torno da popularidade do presidente norte-americano.

Depois veio o violento golpe na economia, sobretudo no mercado de emprego, tendo a maior economia mundial perdido cerca de 26 milhões de postos de trabalho em cinco semanas, entre final de março e durante o mês de abril. E como se já não fosse suficiente, o despertar de tensões sociais relacionadas com a violência policial e a discriminação racial – mediatizadas pelo assassinato em direto de George Floyd na sequência de uma detenção policial –  transformaram as ruas num mar de protestos por parte do movimento “Black Lives Matter”, com inevitáveis consequências negativas para Trump, que falhou em sanar rapidamente as feridas abertas neste âmbito na sociedade norte-americana.

A administração Trump respondeu com um massivo suporte fiscal (equivalente a cerca de 13,2% do PIB) e monetário, e lançou-se numa corrida desenfreada à vacina contra a Covid-19, anunciada ainda este mês, e que poderá estar disponível para distribuição em outubro. No que diz respeito à narrativa política, o presidente norte-americano tem apostado na responsabilização da frente externa, numa primeira fase a China (que acusa de ter escondido saber da existência do vírus durante várias semanas), e numa segunda a Organização Mundial de Saúde, da qual desvinculou inclusivamente os Estados Unidos como membro, por alegadas falhas graves na gestão do surto pandémico e apoio ao encobrimento que Trump também acusa a China de ter levado a cabo.

As sondagens atuais refletem por isso uma extraordinária conjugação de fatores que catapultaram os Democratas para a liderança das sondagens para as eleições de novembro. Neste momento, o candidato democrata Joe Biden segue destacado na liderança, com uma vantagem entre os 6 e os 9 pontos percentuais, de acordo com diversas sondagens que vão sendo divulgadas por diversos observadores e que podem ser consultadas através de sites agregadores como o realclearpolitics.com. Acresce que Donald Trump não surge à frente em nenhuma sondagem de grande dimensão nacional desde abril, altura em que Bernie Sanders desistiu da luta pela nomeação para a candidatura Democrata.

Poderá argumentar-se que Trump está habituado a correr atrás das sondagens como nas eleições anteriores. Mas, em 2016, Hillary nunca teve esta vantagem – a vantagem da candidata na altura face a Trump encontrava-se abaixo dos dois pontos percentuais neste mesmo mês de setembro.  Acresce que, como presidente incumbente e com a popularidade em níveis baixos, o contexto económico e social atual não deixará de criar dificuldades adicionais na reeleição.

Contudo, os debates presidenciais costumam ser momentos decisivos e, em 2016, o candidato republicano mostrou ser capaz de os rentabilizar a seu favor. Adicionalmente, as propostas dos Democratas, que defendem uma maior carga fiscal imediata em favor de uma agenda verde, podem ter pouco acolhimento e afastar o eleitorado pelo potencial impacto negativo que poderão causar numa fase ainda sensível da recuperação económica norte-americana.

As propostas de Biden: mais regulação, mais impostos e investimento em infraestrutura para uma agenda energética verde

No caso de vitória da candidatura democrata, Joe Biden prometeu que irá promover uma reforma fiscal que assenta numa revisão em alta das tributações para indivíduos de elevados rendimentos (acima de 400 mil dólares) e sobretudo para as empresas – a taxa de imposto máxima sobre os rendimentos de empresas pode aumentar de 21% para 28% e passa a existir uma taxa de imposto mínima de 15% sobre os lucros empresariais. Adicionalmente, os impostos que incidem sobre uso de propriedade intelectual (GILTI – global intangible low-taxed income) poderá ver a sua taxa duplicada para 21%.

Biden pretende equilibrar esta rutura fiscal – que tem sido recebida com algum ceticismo, sobretudo dada a conjuntura frágil em que a recuperação da economia ainda se encontra, e o impacto que o agravamento fiscal poderia ter sobre os lucros das empresas  – com um programa de incentivos fiscais em favor de um plano de infraestruturas de uma enorme dimensão (dois triliões de dólares) que pretende utilizar em energia limpa nos sectores dos transportes, energia e construção ao longo do próximo mandato, com o objetivo de perseguir as metas de carbono zero nos próximos 15 anos e de gerar empregos nos sectores de energia limpa suficientes para contrariar os impactes nefastos criados na economia pela pandemia.

Outra das áreas onde os candidatos norte-americanos poderão introduzir alterações é no aumento da regulação em sectores como o tecnológico e os cuidados de saúde. O sector tecnológico norte-americano é atualmente o mais lucrativo da economia norte-americana e tem evidenciado cada vez mais essa hegemonia durante a pandemia, resultado da sua capacidade de gerar receitas e liquidez mesmo com regras restritas de confinamento. Para além da enorme capacidade de inovação, a verdade é que os gigantes operadores do sector tecnológico também beneficiaram  do facto de serem atualmente o sector menos regulado das indústrias cotadas em bolsa nos Estados Unidos, o que lhes tem conferido enormes vantagens em termos de concorrência. Contudo, isto pode mudar com Biden como presidente.

Em primeiro lugar, o candidato já se referiu especificamente aos riscos de posição dominante das grandes empresas tecnológicas, e a imposição de um valor mínimo de 15% de imposto corporativo a pagar teria um impacto visível nas contas de empresas como a Alphabet ou a Amazon.

Em segundo lugar, Biden também já se referiu à necessidade dos Estados Unidos estabelecerem padrões de privacidade de dados em linha com a estrutura dos países ocidentais europeus, para além de outras figuras potencialmente influentes numa administração Democrata, como Elizabeth Warren já terem colocado em cima da mesa a necessidade de segregar atividades e entidades de gigantes da tecnologia como a Amazon, Google e Facebook.

Aliás, a regulação no sector é algo que poderá ganhar tração após as eleições, seja quem for o vencedor. Recorde-se que é um dos temas em que a administração Trump também tem estado ativa, sobretudo no que diz respeito aos operadores de redes sociais, no âmbito do qual tem vindo a legislar em favor de maior exigência de proteção de dados.

A indústria farmacêutica e o sector dos cuidados de saúde também poderão ser alvo de maior regulação. Este tem sido claramente um dos temas políticos mais relevantes em 2020, em virtude da pandemia e da visibilidade que tem conquistado, sendo hoje uma das prioridades, a par da economia – de acordo com uma análise da PEW Research, cerca de 70% dos americanos consideram que deve ser uma prioridade.

Aqui, a candidatura de Joe Biden tem vindo a defender que, caso seja eleito, a sua administração irá procurar reduzir o poder de imposição de preços por parte das farmacêuticas, o que pode passar por conferir maiores poderes às estruturas do medicare (programa governamental para cuidados de saúde)  para negociar medicamentos para uma base mais alargada da rede pública e privada, ou por estabelecer tetos máximos nos preços, assim como mecanismos que fixem à inflação as subidas de preços dos medicamentos.

A China como denominador comum entre Trump e Biden?

As tensões entre a China e os Estados Unidos representam um ponto crucial na campanha de Donald Trump, que tem vindo a polarizar cada vez mais o discurso no sentido de responsabilizar a potência asiática pela escalada da propagação de Covid-19 e, posteriormente, e da proteção de dados e proteção de propriedade intelectual da indústria dos Estados Unidos.

A narrativa norte-americana tem vindo a contemplar medidas noutros campos que não as tradicionais transações comerciais, e incluem maiores restrições a operadores como a Huawei, limitações de acesso a tecnologia norte-americana e ainda restrições nos vistos concedidos a estudantes chineses. Apesar de ser um argumento que a campanha Republicana irá continuar a explorar a seu favor para recuperar terreno, existe um crescente consenso entre os dois grandes partidos relativamente a um maior controlo sobre as relações económicas entre os dois países, e da influência da China na economia norte-americana. A retórica poderá ser menos agressiva com Biden, mas o caminho de maior protecionismo poderá manter-se, mesmo com o eventual afastamento de Trump.

‘Bottoms up’: a corrida já começou. Debates, economia e vacinas serão centrais. Pacificação social também será relevante

No que diz respeito à agenda, a corrida presidencial já começou, com as primeiras votações antecipadas a ocorrer em alguns estados. As atenções, contudo, irão centrar-se nos debates televisivos que vão ter lugar a 29 de setembro (Fox), a 15 de outubro (C-SPAN) e a 22 de outubro (NBC). Entretanto, para além do sucesso nos debates, outros fatores serão cruciais para determinar se Donald Trump conseguirá manter-se na corrida presidencial: i) a divulgação de indicadores relevantes para a economia norte-americana, sobretudo dos números do emprego relativamente ao mês de setembro; e ii) os progressos na frente de desenvolvimento de tratamentos e sobretudo de vacinas para a Covid-19.

Um eventual anúncio antecipado de mais estímulos fiscais, face à incerteza relativa a uma segunda vaga pode também ter influência nos eleitores indecisos. Assim como o reacender ou a pacificação social relacionada com os temas da desigualdade e discriminação terá um papel igualmente relevante durante as próximas semanas da campanha.

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