A insustentável leveza da bolsa

Um crescimento subsidiado e que cavalga uma bolha de liquidez não é estável e fragiliza a economia. Uma das explicações “oficiais” é a necessidade de estímulos para a economia, dada a guerra comercial com a China.

Um dos dados que mais se destacou economicamente no passado ano e que, até ver, continua neste, é o crescimento das bolsas de valores, como se pode mostrar por valores recorde em índices como o S&P500, Dow e Nasdaq. Donald Trump aplaude quase diariamente os níveis cada vez mais altos da bolsa, ainda que estes não representem a verdadeira economia nem um crescimento orgânico.

Porém, e quando muitas análises apontam para o fim de um ciclo económico, levanta-se a questão: porque é as bolsas continuam a crescer tanto e por um período tão prolongado? Contrariamente a um crescimento “real” nas empresas, uma razão mais recente passa mais por um crescimento subsidiado pela Reserva Federal (Fed), algo preocupante.

No final de outubro, a Fed publicou um comunicado a anunciar o aumento de repos (“repurchasement agreements”) para 120 milhares de milhões de dólares, para efeitos de financiamento do último semestre de 2019. Repos são empréstimos assegurados por ativos do estado, em que a reserva federal vende instrumentos de dívida do governo e concorda em comprar os mesmos no dia seguinte a um preço ligeiramente superior, sendo a diferença a taxa de juro.

No entanto, estes repos foram estendidos até ao fim de fevereiro e, devido a estas operações, os ativos da Fed cresceram cerca de 10% desde setembro, estando neste momento em 4,15 triliões de dólares.

Mas qual é o problema de tais repos, e como é que afetam as bolsas?

Acontece que os repos são comprados quase integralmente pela indústria financeira, de maneira que funcionam como um de facto subsídio para instituições financeiras. Este dinheiro é então investido, não na economia real, mas maioritariamente no mercado de ações, inflacionando-o face a várias métricas.

Tal se pode provar pela evolução conjunta dos ativos da Fed e do índice S&P500 nos últimos meses, sendo que desde novembro que ambas convergiram e seguem um percurso quase idêntico. Diga-se que o aumento de ativos da Fed se justifica pela expansão de repos anteriormente referida.

O problema criado por esta situação é que os repos acabam por servir como um subsídio para o sistema financeiro, e cria um sistema de incentivos com riscos escondidos que eventualmente serão pagos por todos nós. O próprio presidente da Fed, Jerome Powell, disse em 2012 que tal expansão traz riscos para a economia, admitindo que o mercado vai sempre aplaudir mais aumentos de repos, e que para o mercado nunca vai ser suficiente.

Estranha-se então a razão de agora permitir tais aumentos. Há quem especule que seja por razões políticas, pois estamos em ano de eleições, ou simplesmente por falta de visão dos efeitos nefastos que o “dinheiro grátis” traz a longo prazo. Outra explicação “oficial” é a necessidade de estímulos para a economia, dada a guerra comercial com a China.

Os riscos estão lá. Um crescimento subsidiado e que cavalga uma bolha de liquidez não é estável e fragiliza a economia. Os aforradores estão a investir as poupanças na bolsa, e quando a bolha rebentar, os bancos podem ter resgates, mas os cidadãos comuns não. A Fed tem de ser mais responsável quando as consequências das suas ações só se notam demasiado tarde.

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