A recente intervenção de Philippe Aghion, laureado com o Prémio Nobel da Economia de 2025, na conferência sobre Inteligência Artificial (IA) e estabilidade financeira do Banco de Portugal, abordou o impacto da IA no mercado de trabalho.

Com base em dados de um inquérito a empresas francesas, Aghion salientou que a adoção da IA pelas empresas pode ter um efeito positivo no emprego, ao aumentar a produtividade e a competitividade, o que, por sua vez, eleva a procura e gera novos postos de trabalho.

Contudo, advertiu que este impacto virtuoso não é generalizável a todos os setores, pois a adoção de modelos de IA em funções administrativas ou facilmente automatizáveis tende a reduzir o emprego.

Para que os efeitos positivos sobre o emprego se concretizem, sublinhou a importância de reformas estruturais, incluindo:

– Um sistema educativo adaptado às novas exigências tecnológicas, com elogios para a reforma aplicada pelo antigo ministro da Educação Nuno Crato, que gostaria de ver replicada em França;

– Uma política laboral capaz de aproveitar o potencial de criação de emprego da IA;

– Políticas de concorrência eficazes, que evitem a concentração de poder nas grandes empresas tecnológicas;

– O desenvolvimento europeu de capacidade de computação, reduzindo a dependência dos EUA.

Peter Howitt, também laureado com o Nobel de Economia em 2025, complementa esta perspetiva ao enfatizar os riscos. Embora concorde que a IA oferece possibilidades extraordinárias, salienta que, sem regulação adequada, pode destruir postos de trabalho e substituir mão-de-obra qualificada. Sublinha, por isso, a necessidade de políticas públicas que protejam os trabalhadores e incentivem a adaptação às novas tecnologias, garantindo que os ganhos da inovação se traduzam em benefícios sociais amplos.

No caso português, a reflexão sobre o impacto da IA no emprego é particularmente relevante. Portugal apresenta uma elevada taxa de desemprego jovem e uma crescente precariedade laboral, fragilidades que podem ser exacerbados pela automação. É imperativo investir em políticas de requalificação profissional, educação tecnológica e apoio à inovação, para garantir que os benefícios da IA sejam amplamente distribuídos e não aprofundem as desigualdades existentes.

Além disso, é fundamental que a IA seja usada de forma ética e responsável, como complemento e não como substituto da ação humana, nos vários níveis de ensino e em contexto laboral. A tecnologia deve ser aplicada de forma transparente, justa e inclusiva, respeitando os direitos dos trabalhadores e promovendo o bem-estar social. A colaboração entre governos, empresas e instituições académicas é essencial para criar um ambiente propício à inovação responsável e ao desenvolvimento sustentável.

Em suma, se a IA tem o potencial de elevar a nossa produtividade – ainda entre as mais baixas da Europa – e, com isso, melhorar o nível de vida médio da população, é igualmente fundamental proteger os mais vulneráveis, para que o progresso tecnológico traga um futuro mais próspero, mas também equitativo, sem deixar ninguém para trás.