A irracionalidade dentro da racionalidade

A ascensão progressiva da Economia Comportamental prende-se com a necessidade de explicar comportamentos não-racionais que a teoria económica não contempla.

Todos os dias somos confrontados com inúmeras decisões, de diferentes naturezas e importâncias, que moldam o futuro adiante. A forma como decidimos sobre elas tem sido um tema recorrente da Psicologia, uma vez que a racionalidade nem sempre é o que dita o resultado final; isto é, na maioria dos casos, temos diversos incentivos para não seguir o óptimo, ficando-nos por uma solução que poderá não ser a favorável no médio e longo prazo.

Tal efeito ocorre sucessivamente com decisões de natureza económica. É nesse campo que a Economia Comportamental surge: para estudar o porquê dos consumidores, por diversas vezes, escolherem o que não é óptimo ou expectável.

Desde os tempos da Economia Clássica que a Psicologia tem tido um lugar de importância, sendo desde logo dada como um factor substancial na forma como os consumidores tomam decisões. Adam Smith, por exemplo, debruçou-se sobre esta matéria na obra “A Teoria dos Sentimentos Morais”, propondo que as nossas acções são julgadas por um espectador imparcial, intrínseco a cada pessoa, através de sentimentos de simpatia ou repulsa. Seriam, portanto, estes julgamentos uma das razões para a escolha de uma gratificação a curto prazo com um consequente custo a longo prazo. No entanto, só mais recentemente, leia-se nas últimas três décadas, é que esta área ganhou a importância devida.

Esta ascensão progressiva da Economia Comportamental prende-se com a necessidade de explicar comportamentos não-racionais que a teoria económica não contempla, e que por diversas vezes resultam na impraticabilidade de um modelo. Deste modo, tenta-se arranjar uma forma de mitigar a disparidade entre a acção prevista na teoria e a acção efectiva tomada por um indivíduo, que é muitas vezes criada por suposições da Economia Clássica, como o perfeito acesso a informação.

O desenvolvimento desta área trouxe novas teorias e conceitos importantes, como é o caso do Efeito de Enquadramento (Framming Effect). Este conceito, que está intrinsecamente ligado ao Marketing, denota a importância da forma como uma possibilidade, escolha, producto ou serviço nos é apresentada, em muito influencia a decisão final. Por exemplo, se uma lotaria for publicitada como tendo em média, por sorteio, um vencedor por cada cem apostadores, é mais atractivo do que publicitar que existem noventa e nove perdedores por cada vencedor. Outro factor importante a referir é o risco. Independentemente da aversão ou não que cada indivíduo tenha ao risco, as decisões serão diferentes, sendo umas óptimas e outras não.

A crescente importância atribuída à Economia Comportamental, pode ser confirmada com a entrega, até ao momento, de três prémios Nobel da Economia por estudos na área: Daniel Kahneman (2002), Robert J. Shiller (2013) e Richard Thaler (2017), sendo este último um dos impulsionadores da “Nudge Theory”, um dos conceitos mais importantes da Economia Comportamental actualmente – e por diversas vezes já aplicado em decisões políticas – que estuda o direccionamento e influência das escolhas de um indivíduo através da forma como algo lhe é disposto ou apresentado.

Este é um dos sete temas que será discutido na quinta edição do Economia Viva, um ciclo de conferências realizado anualmente pelo Nova Economics Club e pela Nova Students’ Union, em Fevereiro, no Campus de Carcavelos da Nova School of Business and Economics.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o Nova Economics Club no âmbito do Economia Viva 2020.

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