Num tempo em que os desafios sociais, tecnológicos e económicos se entrelaçam a uma velocidade sem precedentes, é cada vez mais evidente que nenhum país pode projetar o seu futuro sem investir de forma clara e consistente na leitura e na literacia. No conhecimento. Estas não são apenas competências de base — são infraestruturas fundamentais para o desenvolvimento humano, para a coesão social e para a competitividade das economias.
A literacia, em todas as suas dimensões, deve ser encarada como uma política transversal, que articule cultura e educação, juventude e inovação, bem-estar social e crescimento económico. A leitura é o ponto de partida da capacidade crítica, da comunicação eficaz, da criatividade e de uma intelectualidade livre e vibrante. Investir na promoção da leitura é investir na capacidade de adaptação dos cidadãos, nas suas competências e na resiliência do país perante a mudança.
Afinal, como podemos falar de transição digital sem garantir literacia [digital] e crítica? Como combater a desinformação sem promover hábitos de leitura consistentes? Como antecipar os impactos da inteligência artificial sem compreender os alicerces da linguagem, da narrativa e do pensamento estruturado que o livro promove?
Discutir políticas de leitura é, por isso, discutir o futuro. E é nesse espírito que Lisboa acolhe, a 3 e 4 de setembro, uma nova edição do Book 2.0 – O Futuro da Leitura, evento que tem vindo a afirmar-se como espaço de encontro entre cultura, educação, tecnologia, economia e políticas públicas intersetoriais. Este ano, conta com oradores como Pia Ahrenkilde Hansen, Diretora-Geral para a Educação, Juventude, Desporto e Cultura da Comissão Europeia, e Axel Voss, eurodeputado relator do AI Act, bem como representantes da OCDE, autores, cientistas, educadores e especialistas em inteligência artificial. A diversidade destas presenças confirma que o livro já não é apenas um tema cultural, é também um tema económico, social e educacional. É estratégico para Portugal e para a Europa.
Este debate será reforçado com a apresentação da nova edição do Estudo sobre os Hábitos de Compra e Leitura em Portugal, desenvolvido pela GfK para a APEL, que desde 2023 tem permitido traçar um retrato realista e atualizado dos leitores portugueses. A versão de 2024 revelou que 73% da população afirma ter hábitos de leitura, com destaque para os leitores mais jovens, que são também os que mais compraram livros face a 2023. Este ano, o estudo será novamente atualizado e incluirá novos indicadores como a frequência de eventos relacionados com a leitura. Trata-se de uma ferramenta essencial para informar decisões e orientar políticas públicas mais eficazes e próximas da realidade nacional.
Sabemos que Portugal tem dado sinais encorajadores: o mercado livreiro cresce de forma consolidada desde 2021, segundo o estudo de mercado igualmente da GfK, e o envolvimento das faixas etárias mais jovens demonstra que há uma nova energia em torno do livro. Mas os desafios persistem. O reforço de políticas públicas de incentivo à leitura, o apoio continuado às livrarias e bibliotecas, e a valorização do livro enquanto instrumento educativo são caminhos que devem continuar a ser aprofundados com ambição e visão de longo prazo.
Porque um país que aposta na leitura não está apenas a investir na cultura. Está a investir na sua competitividade, na sua coesão social e na sua capacidade de inovação.



