Havia uma certa rotina, um determinado tango que ajudava o mundo a amanhecer ou a anoitecer com uma ideia aproximada do que aconteceria no dia seguinte e de como isso poderia mudar as nossas vidas. Um ataque iminente ao Irão ou outro golpe no Médio Oriente fariam disparar o petróleo. Se houvesse guerra, os preços subiriam mais e mais, as economias globais perderiam força, e quanto mais durasse a instabilidade, mais profundas seriam as consequências: mesmo com os bancos centrais a reduzir o preço do dinheiro, os países mais frágeis entrariam em travagem e talvez até em recessão. Os maiores e mais fortes também, incapazes de resistir aos ventos gélidos de uma geopolítica devoradora da realidade e da riqueza. As grandes instituições internacionais, por inoperantes que fossem, como a ONU, tornavam-se pequenos botes salva-vidas para onde acorriam os líderes globais à procura do restabelecimento da paz ou de alguma trégua possível.

Foi este o mundo que conheci nos últimos 50 anos, embora as consequências práticas da instabilidade provocada pelos conflitos – ou até por virulentas disputas políticas internas – se tenham, na verdade, atenuado de ano para ano. Lembro-me, nos anos 70 do século passado, da falta de carcaça, rateada na padaria, por falta de matéria-prima. Lembro-me que o meu pai se levantava por vezes demasiado cedo para encher o depósito de gasolina – ou vinha aí novo aumento ou as reservas nacionais de combustível estavam na míngua. A geopolítica impunha-se sem ses e sem mas, fruto das consequências materiais e objetivas que produzia no dia a dia. Ora bem, esta bússola, esta ligação ao real, estragou-se, estilhaçou, perdeu os parâmetros: o mundo pode até estar de pernas para o ar, os riscos – até de um conflito nuclear – estão mais altos do que nunca. As televisões exibem a guerrilha urbana no México contra os senhores da droga – exércitos altamente equipados de parte a parte deixam um lastro de mortos à beira da estrada. Mostram também o resultado da repressão no Irão (30 mil mortos em pouco mais de uma semana) ou os barcos de migrantes africanos ou da Ásia que se afundam semana sim, semana não Mediterrâneo adentro, já sem falar dos quatro anos de guerra na Ucrânia e da tragédia em Gaza ou das ameaças diárias do psicopata Donald Trump.

E, no entanto, ao contrário do que acontecia, hoje o mundo não para nunca e até cresce saudavelmente. A economia floresce. Bomba. Os mercados financeiros, com uma ou outra correção pontual, estão em máximos históricos (exuberância irracional?, perguntaria Alan Greenspan). O ouro, investimento de refúgio, também sobe, sinal de que há alguma preocupação, mas todas as outras classes de ativos apontam divinamente para o céu. O mundo está desconchavado. Ciclotímico. Insensibilizado, como um velho dente sem vida. Há países que passam anos sem governo formado e sem orçamentos aprovados – e até prosperam. Nada parece deter a fábrica de desejos global. A cabeça da tempestade furiosa – de onde saem várias serpentes sibilantes (“A Medusa”, de Caravaggio) – agita-se no ar, mas faça sol este fim de semana e estaremos todos na praia a gozar o instante. É possível manter esta ficção durante quanto tempo? Será esta separação entre a geopolítica e a economia (e a democracia?) para manter durante quanto mais tempo? Até acontecer exatamente o quê? A complacência é o nosso maior inimigo. O homem é um animal de hábitos, hoje dormimos num catre moral, envolvidos em belíssimas penas de avestruz.