Vivemos num tempo em que a tecnologia redefine a nossa forma de viver, de comunicar e até de pensar. Mas, perante tantos avanços, algo de essencial parece estar a perder-se: o sentido compartilhado da vida em comum, do nós. O filósofo francês Bernard Stiegler (1952-2020) chamou a essa perda miséria simbólica, um mal-estar moderno que nos afasta da cultura, da memória e dos laços humanos que nos sustentam.

Para Stiegler, o ser humano sempre foi técnico por natureza. Desde a invenção da escrita até aos smartphones, somos seres que exteriorizam a memória e o conhecimento em ferramentas. O problema surge quando essas ferramentas deixam de servir à construção de sentido e passam a controlar as nossas emoções, decisões e desejos. Isso acontece, por exemplo, quando passamos horas nas redes sociais, bombardeados por estímulos que nos prendem, mas pouco dizem sobre quem somos e muitas vezes só servem para dividir e incendiar.

Esta perda de referência coletiva gera um tipo de pobreza simbólica. Sem narrativas, histórias ou valores que nos ligam, tornamo-nos mais vulneráveis à ansiedade, à solidão, ao consumismo desenfreado e a todo o tipo de xenofobias. É como se estivéssemos cercados de informação, mas vazios de significado, como se os “símbolos estivessem condenados a virar diabolos.”

Para combater este novo tipo de miséria, Stiegler propõe um conceito antigo, mas poderoso: a philia, a amizade no sentido mais profundo, como condição da vida pública. Não se trata apenas do afeto entre as pessoas, mas de um vínculo social baseado na confiança, na escuta e na construção de um mundo comum. Inspirado por Aristóteles, defende que uma sociedade só pode existir de facto se houver laços que unam os seus membros, e esses laços precisam de ser cultivados. Esse seria o trabalho da política, uma vez que aquilo que é traduz-se essencialmente na relação com o outro, num sentir conjunto, na aceção de uma sim-patia.

A philia seria, então, uma resposta ética e política ao esvaziamento simbólico promovido pela lógica do lucro e da aceleração digital sem freio. É através dela que podemos reconstruir a vida em comunidade, reapropriar-nos das tecnologias e dar novo significado às práticas culturais, à educação e até ao tempo que dedicamos uns aos outros, nomeadamente no cuidado do espaço público.

Stiegler não é contra a tecnologia, mas vê a tecnologia como um fármaco, uma substância que tanto pode ser veneno como remédio, dependendo de como é usada. Por isso, o desafio não é rejeitar as redes, os algoritmos ou os dispositivos, mas transformá-los em instrumentos de conexão real, de partilha de saberes e de construção coletiva de um nós.

Em tempos marcados por crises ambientais, sociais e emocionais e um enfraquecimento das democracias, esta reflexão é ainda mais urgente. Resgatar a philia é, talvez, o primeiro passo para sairmos da miséria simbólica e reencontrarmos o que nos torna verdadeiramente humanos: o desejo de viver juntos, com sentido e solidariedade.