A morte saiu à rua…

Continuamos a assistir a despedimentos em massa com um ar impávido, mesmo quando se sabe que os trabalhadores estão a pagar uma factura do que não fizeram.

(Enquanto escrevia estas linhas deparei-me com a notícia de encerramento de 31 balcões do Montepio Geral, a par da invocada reestruturação da TAP. Há alguma ironia em quase tudo o que se passa nestes país, rectângulo onde os gestores de um outro banco que não tiveram um único êxito até agora se dão prémios a eles próprios mas em que já despediram centenas de trabalhadores. Ficamos presos a desgraças individuais e fogem-nos as colectivas. Também é um sinal dos tempos: o afunilamento do que retemos impede-nos de perceber a realidade. Até que, muitas vezes tarde demais, a realidade se torne a nossa.)

Pedro Lima, cuja imagem pública era a de um homem feliz, de família e aparentemente realizado, matou-se, numa manhã igual a tantas outras. Não há eufemismos para uma morte assim.

Portugal estancou, perplexo com a notícia e com a forma. Entre os motivos, ao que consta, estarão problemas financeiros e uma depressão mais profunda do que ele parecia admitir e que só os mais próximos conheceriam, já que o que era dado a ver aos demais era um aparentemente eterno sorriso. Não foi o primeiro. Não será o último. O alegado mundo dos “famosos” está cheio de infelicidade escondida porque esta só vende quando se transforma em tragédia. Como foi o caso.

Com a sua morte passou a falar-se em depressão, doença típica destes tempos em que estamos – ou sentimos que estamos – sozinhos no meio de uma multidão que se acotovela e também, de momentos de maior debilidade e que não tem rostos ou vítimas preferenciais, sendo que se disfarça de muitas formas. A depressão é um buraco negro, a sorver tudo o que temos de melhor e a transformar todas as manhãs em noites de 24 horas.

Porém, não creio que o problema se resolva – ou, sequer, se atenue – com transmissões em directo das cerimónias fúnebres ou grandes posts nas redes sociais. Claro que esta morte impressiona, seja porque não condiz com o que dele se conhecia, seja porque era uma pessoa que inspirava simpatia, deixando mulher e filhos menores.

Contudo, o que se diz ter sido a motivação de Pedro Lima, ou seja, quebra de rendimentos e uma extrema preocupação com os filhos, pode ser a de quase todos nós, sem que ninguém pense na dimensão do que o desemprego pode provocar.  O temor de Lima é o mesmo do português típico, preso entre vínculos precários e uma vida em suspenso para sustentar, apenas diferindo deste nos zeros dos rendimentos.

Não obstante, se quanto a este a reacção genérica foi de consternação, continuamos a assistir a despedimentos em massa com um ar impávido, mesmo quando se sabe que os trabalhadores estão a pagar uma factura do que não fizeram. E se estes suicídios servem para algo é, justamente, para que se lute contra as causas, em vez de nos limitarmos a chorar os efeitos.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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