O pior sinal dos tempos que vivemos é a apatia e dessensibilização perante choques sucessivos. Esta é uma época marcada por uma rápida sucessão de acontecimentos que levam à formação de novos blocos autoritários.

Os EUA estão no centro desta rápida transformação. Outrora considerados como aliados que zelavam pelo cumprimento do Direito Internacional, embora sempre da forma mais conveniente possível para os seus interesses, estamos agora a assistir ao desmoronar da sua frágil democracia com a constituição de uma organização paramilitar (ICE) que aterroriza os estados americanos e respetivas comunidades, literalmente à caça de imigrantes que se tornaram párias aos olhos do governo americano.

Tudo isto sob a liderança de um presidente que desrespeita todas as instituições que fiscalizam a sua ação e agora decide violar a soberania de outros países. O que aconteceu na Venezuela não gerou apatia, pelo contrário. Foi um choque profundo que abalou o sistema.

Queríamos muito acreditar que haveria limites que seriam respeitados, mas a captura de Maduro e o desvio de milhões da indústria petrolífera (como já foi anunciado) provaram que não há limites à política trumpista da imoralidade e indecência.

As imagens da captura de Maduro, por mais questionáveis que tenham sido as suas ações, são uma versão contemporânea das imagens dos líderes bárbaros que viam as suas terras invadidas pelos romanos e eram depois levados em correntes para Roma.

Já não é um espetro a ameaçar, mas um monstro com ambições imperialistas que cresce de forma vertiginosa, faz pouco das convenções de Direito Internacional, destrói, aterroriza, subverte as instituições democráticas, polariza, cria barreiras e não hesita em fazer uso de uma linguagem bélica arbitrária e despótica.

Mas a verdade é que só sentimos esta ameaça agora porque passou a afetar as sociedades ocidentais. Países latino-americanos foram alvo de intervenções americanas durante décadas no séc. XX, causando um rasto de destr

uição e trauma. Quando Trump decidiu atacar a Venezuela, a UE respondeu de forma cobarde e tímida. Será essa a resposta perante um possível ataque à Gronelândia?

Este é apenas o início. Outros choques virão. Já não é possível viver em estado de negação. A dessensibilização perante a sucessão de abusos tem de dar lugar à indignação consciente, ao combate cívico, à resistência e a uma defesa inequívoca, e sem concessões, dos Direitos Humanos.