A nossa vida com a tecnologia

Vai havendo algoritmos compositores e imaginam-se robots de companhia, mas ainda bem, o problema não é inventarmos máquinas mais humanas, mas ficarmos nós menos humanos.

Desde o princípio, a história da humanidade é uma história de penetração progressiva da tecnologia nas nossas vidas. A tecnologia expandiu capacidades além dos limites que a biologia impõe. Por exemplo, um pau prolongando artificialmente o comprimento de um braço, tornando-o muito mais poderoso, a lembrar o “2001 – Odisseia no Espaço”, uns binóculos a expandir a capacidade de visão, a escrita alargando a memória no tempo e no espaço, etc.

O impacto da tecnologia na vida das pessoas está longe de ser uma novidade. O que é novo é a tecnologia deixar de ter de nos prolongar e de nos expandir os limites, como sucedeu em toda a história da humanidade, para poder desenvolver-se cada vez mais longe de uma referência a nós. A automação, a IA, o “self-learning” manifestam esse padrão de separar a actividade da tecnologia da actividade humana. Obviamente a tecnologia continua a estar ao nosso serviço, pelo menos por ora, mas com a diferença de que para funcionar nos implica cada vez menos.

Alguns eixos mais sensíveis. Logo na produção económica, onde a pressão para incrementos de produtividade vai substituindo trabalhadores por máquinas tanto na indústria pesada como na rotina dos serviços mais simples. O mais certo é que onde um algoritmo puder entrar, mais tarde ou mais cedo ter-se-á um algoritmo. Por razões de produtividade, mas também porque os algoritmos não têm segredos, são fiáveis e, no fim de tudo, não lhes podem ser assacadas responsabilidades.

Significativamente, já não faltam algoritmos que fazem, no lugar de pessoas, entrevistas de emprego a outras pessoas. Acabarão por ser máquinas a contratar e a despedir mesmo que haja uma pessoa a pôr um visto sobre o que aquelas decidam. E quando um software se mostrar inegavelmente melhor condutor de automóveis do que humanos, salvando as vidas que de outro modo se perderão, será uma contagem decrescente até que nos vejamos racionalmente compelidos a discutir a proibição de conduzir sem a sua assistência.

Estas mudanças suscitam muitas questões de grande alcance e que tornam imperioso separar o que se quer do que não se quer e, assim, ir preparando o futuro.  Primeiro, se uma grande maioria de pessoas activas se vir substituída por robots, o controlo social sobre a produção económica fica comprometido. Deixam de fazer sentido cadernos reivindicativos e greves de trabalhadores. É bom acabar com a exploração do trabalho, mas sem alienar o direito a produzir e a enraizar a produção nas necessidades e escolhas de uma sociedade.

Segundo, se formos despedidos e contratados por decisão de um algoritmo ninguém, verdadeiramente, assume a responsabilidade da decisão. Pôr algoritmos a decidir é uma expressão ilusória porque realmente não estarão a decidir, mas a dar sequência, através de rotinas programadas, a pré-decisões entre si separadas e separadas da situação concreta que vão julgar.  Não é difícil de imaginar as vantagens que esta dissociação traz para sistemas políticos totalitários. Terceiro, se a percepção da falibilidade das pessoas, tal como a da sua pouca produtividade, tende a crescer à medida que a tecnologia se aprimora, acabaremos a encerrar-nos uns aos outros, como pequenas crianças dentro de parques infantis acolchoados.

A distopia que podemos ir imaginando nem é tanto a tecnologia ganhar vida própria e perdermos o controlo sobre ela, como num filme de terror científico, mas, mais subtilmente, ela poder conduzir-nos a uma condição abandonada no mundo, sem que tenhamos uma palavra a dizer sobre a produção económica, sem que nos confiemos a capacidade de julgar, sem que nos assumamos sequer a responsabilidade por nós próprios.

Cada ganho de inteligência das máquinas abona pouco a favor de uma alternativa. Podemos criar novos empregos, mas como muito bem antecipou Keynes, nuns já longínquos anos 30, o problema é o ritmo da criação de novos empregos não acompanhar o ritmo com que avança a tecnologia, descobrindo mais depressa meios de economizar o uso do trabalho humano.

Mas talvez não tenha de ser assim. Se a produtividade é uma luta perdida com as máquinas, talvez preparar um futuro de céu mais limpo passe por conceber o trabalho humano fora desse constrangimento, apostando nos trabalhos comunitários, relacionais e criativos, todos eles menos desumanos do que o trabalho maquinal a que muitas vezes nos sujeitamos sem alternativa. Vai havendo algoritmos compositores e imaginam-se robots de companhia, mas ainda bem, o problema não é inventarmos máquinas mais humanas, mas ficarmos nós menos humanos.

E contra um horizonte sombrio em que máquinas decidem e agem pelas pessoas, a alternativa é compreender a falibilidade do juízo humano e o risco a que nos expomos simplesmente por comparecermos na existência. Não são debilidades, mas o estofo da condição humana. Em suma, é preciso que não seja inevitável a tecnologia desligar-se das pessoas e, assim, desligar a vida das pessoas do mundo.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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