A nova Cristina Ferreira

CF é uma marca poderosa que ainda não entendeu, porque ninguém lhe explicou, que a notoriedade é útil para a progressão na carreira, mas é a reputação que deve ser duradoura, até por ser mais valiosa.

Yukio Mishima, em “O marinheiro que perdeu as graças do mar”, escreve: “a glória, como sabeis, é uma coisa amarga”. O regresso de Cristina Ferreira (CF) à TVI, até agora, não tem corrido de acordo com as expectativas criadas. “O dia de Cristina” terminou abruptamente após investimento avultado, algumas apostas são duvidosas ou pífias e o “All Together Now”, a sua aposta para a noite de ouro da publicidade, o domingo, ficou em quarto e a estação nesse dia perdeu por cinco pontos para a SIC, uma derrota dura.

Tenho muito respeito por todos aqueles que constroem a sua carreira a pulso, com o esforço do seu trabalho, sem cunhas, sem a influência da genealogia ou a patine de salões onde os medíocres se protegem entre si. Logo, mantenho imensa consideração pela directora da TVI, aliás, como já escrevi no passado.

Se CF ler o meu título pensará: “mas não há uma nova CF, eu sou a mesma”. Até pode pensar assim, mas está errada porque ninguém a está a aconselhar bem. O que mudou foi a percepção dos portugueses sobre ela. Já não é a simples rapariga da Malveira que, como um tsunami, se impôs nas manhãs e dando, posteriormente, o salto para os braços do inimigo ajudou a virar o jogo das audiências. Essa simpatia pura que o público lhe devotava está a ser macerada pela imagem da “patroa” que manda, e quer continuar a mandar, que anuncia e faz declarações ao País com hora marcada, como se fosse a inquilina de Belém ou São Bento.

Há uma altura na vida em que se cresce e tudo à nossa volta parece mais pequeno. É aí que não bastam os amiguinhos do costume nem os jeitosos que dinamizam as redes sociais. CF é uma marca poderosa que ainda não entendeu – porque ninguém lhe explicou – que a notoriedade é útil para a progressão na carreira, mas é a reputação (mais difícil de consolidar e conquistar) que deve ser duradoura, até por ser mais valiosa.

CF está a exagerar na sua exposição. “Voluntarismo”, dirão os indefectíveis, “deslumbramento”, sussurram os críticos. “Quando se está no topo há sempre alguém a tentar tirar-nos de lá”, ouve-se em “Gangs of London” (HBO).  Frase que emana da psicologia e natureza das multidões que criam deuses e deusas num ápice, levam-nos aos píncaros da fama, para depois salivarem enquanto assistem à sua derrocada num qualquer abismo.

O recato, o mistério, são vitaminas para a criação de uma lenda. Gerir o tempo das suas presenças em antena é algo que terá de rever. CF é uma lutadora, por certo que se vai bater para ganhar e cumprir os seus objectivos, o que torna aliciante a guerra dos tronos das televisões nos próximos tempos. Contudo, deve estar ciente que, para lá das intrigas das suas Némesis, o sucesso em Portugal nunca é fácil de perdoar. Não fosse a última palavra da nossa obra monumental e épica, “Os Lusíadas”, inveja. E Luis Vaz de Camões conhecia muito bem os portugueses.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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