A pandemia está a vacinar os povos contra os extremos?

Talvez sim, mas cada país terá a sua resposta, em função das suas circunstâncias e da avaliação que os eleitores farão da forma como os governantes lidam com a pandemia e os seus efeitos.

A pandemia de Covid-19 terá repercussões que provavelmente só conseguiremos compreender dentro de muitos anos. Os seus efeitos na economia, nos hábitos sociais e na forma como trabalhamos irão provavelmente perdurar. E quanto à política, quais serão os seus efeitos?

Creio que também neste domínio será ainda cedo para compreender plenamente o impacto da pandemia. Mas uma coisa parece certa: a pandemia parece ter tirado alguma força à corrente populista e nativista, próxima da extrema-direita, que nos últimos anos ganhou relevância em muitos países do hemisfério ocidental. Mas a direita radical não foi a única a perder terreno, pois o mesmo parece estar a acontecer com a extrema-esquerda, após a década dourada que se seguiu à crise financeira de 2008. Por outro lado, os moderados parecem estar a ganhar força.

Dois exemplos recentes parecem confirmar esta tendência. O primeiro é o das eleições americanas, com a derrota de Trump, mas sobretudo com a forma como Biden venceu. O candidato democrata teve o apoio do eleitorado mais à esquerda e de algumas minorias étnicas que tradicionalmente votam “azul”, mas não foi isso que lhe deu a vitória, até porque Trump também conquistou uma boa parte do eleitorado latino, por exemplo. Segundo uma análise da Brookings Institution, o que realmente deu a vitória a Biden foram os subúrbios habitados por classe média branca, que em muitos casos são feudos republicanos, mas que nesta eleição decidiram trocar o estilo truculento de Trump pela liderança serena, previsível ou mesmo “cinzenta” de Joe Biden.

O mesmo vimos acontecer há dias nas eleições autárquicas no Brasil, com a vitória dos partidos moderados. Pela primeira vez desde 1985, o PT de Lula não conseguiu vencer numa única grande capital brasileira, enquanto os candidatos apoiados pelo Trump brasileiro foram igualmente relegados para segundo plano. Os brasileiros parecem estar cansados da polarização ideológica dos últimos anos.

Quer isto dizer que a pandemia constituiu uma vacina contra o populismo e que, em tempos conturbados, os eleitores preferem jogar pelo seguro e votar em políticos do “centrão”? Talvez, mas provavelmente cada país terá a sua resposta, em função das suas circunstâncias e da avaliação que os eleitores farão da forma como os governantes lidam com a pandemia e os seus efeitos.

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