A política portuguesa em tempos de Carnaval

A discriminação negativa de que a mulher continua a ser vítima exige a reserva de uma data para a luta contra uma situação que insiste em confundir preconceito com cultura.

Como decorre da tradição, a época de Carnaval é um tempo de folia. Uma situação sintetizada na frase que lembra que a vida são só dois dias, mas o Carnaval dura três. Por isso, no caso português, havia que aproveitar ao máximo a tolerância de ponto concedida pelo Governo.

Acontece que, por um dos caprichos do calendário, a semana do Carnaval este ano, logo a seguir à Quarta-feira de Cinzas, abrangeu o dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. Um dia que não deveria ser necessário celebrar, pois o Dia da Mulher, tal como o Dia da Mãe ou o Dia do Pai, deveria ser todos os dias. Só que a discriminação negativa de que a mulher continua a ser vítima, mesmo no Mundo Ocidental, exige a reserva de uma data para a luta contra uma situação que insiste em confundir preconceito com cultura.

No entanto, a circunstância de 14 portuguesas terem sido assassinadas em dois meses por quem com elas partilhava – ou tinha partilhado – a vida íntima, não foi suficiente para alguns titulares dos órgãos de soberania esquecerem por completo o espírito carnavalesco.

Só esse espírito pode ter levado António Costa a mascarar-se de cozinheiro e aceitar cozinhar uma cataplana em direto na televisão. Rodeado da família, um hábito que parece fazer escola no seu Governo. Felizmente, a apresentadora não se disfarçou de política profissional malgrado o estilo discursivo a tender para estridente.

Também Marcelo Rebelo de Sousa resolveu aproveitar o Carnaval para ir distribuir afetos por terras de Angola. Um país que, mesmo não sendo o Brasil, tem sempre o pé, tal como o resto do corpo, disposto para a dança. Vamos ver se a visita se vai traduzir em mais do que os banhos de multidão ou se, parafraseando um refrão, “tudo acabar na quarta-feira”.

Só que o espírito folião não se quedou pelos Chefe de Estado e do Governo. Afinal, só a persistência desse espírito pode ter permitido a Catarina Martins, já depois do fim do Entrudo, comparar António Costa a Pedro Passos Coelho, acusando-o de, a exemplo do seu antecessor, ter limpado bancos com o dinheiro de todos. Verdade que a grande referência interna do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, também resolveu entrar na brincadeira quando afirmou que o BE “nunca teve causas fraturantes”. Uma afirmação que não permite perceber cabalmente a conceção que Louçã tem do adjetivo a que recorreu.

Importa, no entanto, reconhecer que a ousadia de Catarina foi muito além. De facto, não está ao alcance de qualquer folião ter o arrojo de acusar Costa de entrar nos bolsos dos portugueses para tapar os erros dos banqueiros, depois de, ao longo de quatro anos, ter viabilizado os orçamentos que permitiram a Costa manter-se à frente do Executivo.

Fora deste espírito só Ana Catarina Mendes. Então não é que resolveu defender a honra de Costa e considerar “inaceitável” a comparação feita pela líder do BE?! Sendo provável que Ana Catarina conheça o provérbio: “é Carnaval, ninguém leva a mal”, importa contextualizar a questão.

Assim, como ensina o calendário, terminado o Carnaval começa a Quaresma. Um tempo de recolhimento e reflexão. Um desiderato difícil de cumprir num ano com três eleições. Talvez isso explique, em grande parte, as palavras de Catarina e a reação da segunda figura da direção do Partido Socialista.

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