A presunção de Câncio

Que só tenha descoberto agora que Sócrates lhe terá mentido, ou seja, no mesmo exato momento em que o PS o passou a criticar publicamente, é ridículo.

Como ponto prévio, hesitei muito em escolher este tema porque não sou particularmente admiradora de grandes arautas da moral e do feminismo que, depois, aceitem que homens, sejam eles quais forem, lhes paguem a festa. Tento não contribuir para o mediatismo de pessoas pelas quais não nutro o menor respeito intelectual. Por outro lado, não esqueço que, lá está, enquanto durou a festa, Câncio, que diz que é jornalista, usou as páginas onde escreve para fazer verdadeiras campanhas políticas a favor não apenas do então namorado como do PS, o que tanto diz dela, como de quem lhe paga o vencimento.

Ninguém está a salvo de erros de julgamento. A questão aqui é outra. É a de saber-se se é minimamente aceitável que uma alegada jornalista de renome não apenas finja que não sabia de nada como ainda se permita vir lançar uma ofensiva sobre um ex-namorado que, literalmente e tanto quanto se sabe, lhe deu de comer e, a fazer fé no que a mesma terá dito, lhe pagou férias, intercaladas com projectos de aquisições de imóveis no Chiado que nunca nenhum deles poderia legitimamente pagar.

Curiosamente, ou talvez não, no momento em que o PS lançou uma ofensiva sobre José Sócrates e em que um dos núncios foi, nem mais nem menos, do que a mesma alma que terá avisado aquele de diligências em segredo de justiça, Câncio decidiu escrever um artigo, onde não apenas não pede desculpa como se vitimiza por actos praticados por José Sócrates. Dito de outra forma, uma mulher que tem formação superior, é jornalista e, como tal, é suposto não desconhecer quanto ganha um primeiro-ministro, quer-nos convencer que foi enganada. E, não inteiramente contente com tal, aproveita para cavalgar de novo a onda, desta feita renegando o que antes elogiou.

Sucede que, se Sócrates for declarado culpado (direi até principalmente se o for), a atitude de quem, não apenas foi sua companheira, como aproveitou o desafogo, só branqueia o seu comportamento se formos muitíssimo ingénuos. Que o diga perante o MP percebe-se e até se pode entender. Que use o espaço onde lhe pagam para exercer a sua profissão para maquilhar a sua imagem é algo que só se percebe se quem lhe paga tiver também uma agenda própria. Last but not least, que só tenha descoberto agora que Sócrates lhe terá mentido, ou seja, no mesmo exacto momento em que o PS o passou a criticar publicamente, é ridículo.

De todo o modo, a sua atitude, enquanto ser humano, é a oposta à que, desde sempre, apregoa. Não só bate quando todos o fazem como pretende fazer de todos nós parvos, numa tristíssima cantilena que revela mais sobre a sua autora do que sobre aquele que, agora e só agora, visa atingir.

Também por isso ninguém duvida que Câncio não é uma mulher de moral duvidosa porque, na verdade, ninguém tem dúvidas quanto à sua moral.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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