A retoma em K

Em Portugal a retoma em K significa que os trabalhadores do sector privado, esquecidos por este orçamento, estarão no vértice descendente do K.

Estou absolutamente siderado! Critiquei duramente a proposta do Orçamento por ser marcadamente socialista e de esquerda e, ainda assim, a extrema-esquerda pretende votar contra e aceitar que Portugal se governe, na maior crise económica das nossas gerações, por duodécimos de um orçamento pretérito, desenhado para uma vida normal e sem Covid.

O desplante do Bloco de Esquerda vai ao ponto de sugerir um outro orçamento, porventura um com que ele sonhe ou talvez decalcado de um da sua estimada Venezuela.

O Orçamento deve ser apresentado pelo Governo e a partir deste documento, numa democracia, são admitidas propostas, variantes, modificações, mas não outro orçamento, concebido por partidos minoritários. Claro está que quer o PCP quer o Bloco de Esquerda gostavam mais de uma economia centralizada e planificada, onde o Estado se confunde com a economia e com as empresas, de preferência sem (muita) democracia.

Dito isto, e perante a realidade económica e o impacto da segunda vaga na europa, o nosso mercado de exportação natural, cada vez mais os economistas vão deixando cair a retoma em U, em V e falam da retoma em K. Em Portugal a retoma em K significa que os funcionários públicos, os reformados e pensionistas, e suas famílias, e os subsidiados com apoios sociais que se anunciam, recuperarão economicamente e os trabalhadores do sector privado, esquecidos por este orçamento, estarão no vértice descendente do K.

É a célebre máxima, tão cara aos sistemas socialistas, aos amigos tudo, aos inimigos e adversários nada e aos outros aplique-se a Lei…

Contratar mais 10.000 auxiliares de educação (um escândalo e revelador do que se quer da Educação) e mais 4.000 efectivos para reforçar o Serviço Nacional de Saúde, este mais compreensível, com a manutenção das promoções por antiguidade (nunca por mérito) da função pública e toda a panóplia de despesa pública anunciada, incluindo as dotações para as empresas recentemente nacionalizadas, revelam bem o traço socialista deste novo orçamento. A dívida que financiará tudo isto não é para ser paga como dizia Sócrates…

Mas o que mais me choca é o preconceito ideológico de não querer utilizar o sector privado e social de saúde nesta altura de crise pandémica, onde morrem milhares de pessoas por falta de assistência do Serviço Nacional de Saúde. Este pode, e deve, prestar os seus serviços de saúde organicamente e, subsidiariamente, mediante outsourcing de serviços que não possa prestar. Isto sim, seria o acesso à saúde universal e gratuita.

Aceitar gastar (e não investir) na TAP 1.700 milhões de euros por mero preconceito ideológico de ter uma companhia de bandeira e custe o que custar, e não aceitar subcontratar o sector de saúde privado e social, nesta fase pontual e não recorrente e com preços concorrenciais, é de bradar aos céus.  Mas esse preconceito ideológico entra em gritante contradição quando aceitam despedir milhares de trabalhadores da TAP, empresa beneficiária de avultados apoios públicos, por força de uma reestruturação empresarial. Exactamente o que pretendem impedir as empresas privadas de fazer. E eu até posso concordar que uma empresa que dê lucro, nesta fase pandémica, não possa pontualmente despedir.

Estas contradições ideológicas fizeram-me lembrar um recente episódio de um despedimento promovido pelo PCP que foi declarado judicialmente ilícito. É caso para dizer faz o que eu digo, não faças o que eu faço. “Os mestres da lei e os fariseus se sentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam.” (Mateus 23:2,3 NVI)

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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