A revolução tecnológica e a banca na hora da verdade

Uma década depois de uma crise financeira que marcará gerações, a banca enfrentará nos próximos anos o maior desafio da sua história: a luta pela sobrevivência do seu modelo de negócio.

Os últimos anos têm sido pródigos em notícias sobre o sistema financeiro. O seu tom e conteúdo são ainda motivo de preocupação, mas a realidade é mais complexa do que poderia parecer. Apesar de as atenções ainda se centrarem na liquidez, os desafios deste tempo partem de entraves estruturais ao desenvolvimento do mercado no longo prazo.

O diagnóstico é simples. O passado recente dá-nos conta de vários negócios de referência – da Kodak à Blockbuster – que sucumbiram perante a alteração estrutural das suas indústrias. O atraso na resposta a essas alterações é tendencialmente fatal, e não há nenhuma receita mágica para a transformação. Procurar importar modelos pré-definidos pode até ser perigoso, e o que importa é promover novas práticas que conduzam à inovação no quotidiano.

O paradigma mudou. Em 2017, Paulo Macedo, presidente da CGD, dizia-nos que “os jovens preferem ir ao dentista do que ao banco”. Os jovens, recorde-se, são um mercado fundamental para o futuro – estabelecer uma relação comercial com um jovem de 20 anos permite posteriormente angariar produtos como contas-ordenado ou créditos à habitação.

Perante esta nova realidade, assistimos recentemente à inauguração de uma cafetaria do Santander em Lisboa. O essencial será garantir a transformação das organizações financeiras antes que sejam abaladas por uma crise existencial irreversível, e quem não perceber o atual estado de coisas ficará irremediavelmente para trás.

Vejamos o diagnóstico:

1. O mercado atingiu a maturidade e o seu potencial de crescimento é curto. Com taxas de juro muito baixas, os resultados potenciais da banca limitam-se à recuperação de imparidades já reconhecidas. De pouco vale esperar pela reação dos bancos centrais, porque essa prevê-se lenta e penosa. Somam-se a isto rácios de transformação de depósitos em empréstimos vincadamente mais baixos do que no passado, o que reflete uma menor concessão de crédito – o principal meio de obtenção de lucros.

Por último, a cobrança de comissões já ultrapassa os limites do aceitável e não tem margem de crescimento. Neste cenário, é previsível que a banca atinja um estado estacionário, ou seja, uma taxa de crescimento constante que poderá, ou não, tender para o crescimento de longo prazo.

2. A concorrência vem de fora da indústria, da mesma forma como a Nokia menosprezou a ameaça da Apple ou da Google (a BlackBerry, por exemplo, também falhou em perceber que a nova concorrência era conceptualmente diferente e ultrapassava os serviços de email). Pelo contrário, a banca terá de entender que o mercado já não é o que foi no passado e que as suas dificuldades se irão agravar com o aparecimento de players provenientes, fundamentalmente, do sector tecnológico. Note-se que a Amazon já providencia cash advances aos seus comerciantes e, em algumas geografias, recolhe depósitos porta-a-porta (o dinheiro, entregue a um estafeta, entra diretamente numa conta online que escapa à atual malha da regulação).

Em conclusão, o advento das novas tecnologias permite a alguns players especializados (e muito capitalizados) prestarem serviços anteriormente exclusivos à banca – tanto a custos mais baixos como com maior conveniência.

3. Novas formas de obter crédito poderão substituir o sistema bancário. É comum pensar-se que o sistema bancário é fundamental para o crescimento económico, mas nem sempre foi assim (por muito que o sector, os governos, os reguladores e até os economistas o deixem recorrentemente transparecer).

Dark Matter Credit”, da Princeton University Press (um dos mais relevantes livros de economia já publicados em 2019), recorda-nos uma Europa que cresceu, em que não existiam bancos, mas em que existia crédito. Essa Europa tornou-se rica ainda antes da implantação dos bancos, sobretudo através de um sistema-sombra de empréstimos entre as pessoas (que em França, em 1840, garantia tanto crédito hipotecário quanto o sistema bancário norte-americano em 1950).

Esta perspetiva histórica – que não é assim tão longínqua – deve levar-nos a refletir sobre a possibilidade de os bancos se virem a tornar irrelevantes numa economia de proximidade galopante. O regresso a este peer-to-peer lending, impulsionado pela internet e pelos protocolos de confiança da blockchain, é só uma das ameaças de que já se fala.

4. Os novos players poderão beneficiar da complementaridade entre serviços. A integração do comércio online com a prestação de serviços financeiros, como no caso da Amazon, poderá permitir reduzir custos e atrair novos clientes interessados na simplificação. Resta saber se os investidores estão na disposição de investir nas empresas tecnológicas que ingressam pelo sistema bancário, ou se preferirão fazer a sua própria diversificação. O estabelecimento de parcerias parece, no entanto, incontornável – e é tradicionalmente a forma mais barata e eficaz de financiar a inovação.

Como vimos, desta vez é diferente. A economia de redes desenvolveu-se surpreendentemente e sem que muitos se adaptassem. A ameaça ao sistema bancário – em que os contribuintes muito investiram – já não é só uma questão de liquidez. É existencial. Ao contrário de Antony Jenkins, um antigo CEO do Grupo Barclays, não vaticinarei o fim da banca em 20 anos, mas assinalo que o número de dependências bancárias na Europa caiu 21% na última década.

A banca enfrentará nos próximos anos a sua hora da verdade. Reagir proativamente a esta crise exigirá compromisso e um forte investimento na diferenciação da oferta e na capacitação dos trabalhadores – assim as lideranças o entendam e assim haja vontade de o fazer.

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