A ‘silly season’

Nunca como agora tivemos uma evidência tão clara do mal que fazemos ao planeta. E temos de fazer diferente para que, pelo menos, a distopia seja apenas esta, a que já conhecemos.

Entrámos na silly season… Nome interessante para uma altura do ano em que estamos, em princípio, a carregar energias para mais uma jornada.

Por defeito de profissão penso sempre em anos letivos e não em anos civis. Por isso, para mim este é mais um final de ano e uma pausa, bem necessária, para conseguir arrancar o próximo. Durante estes meses estivais (estranho verão este com vento, chuva e pouco calor) as notícias parecem mais lentas, mais arrastadas. Há, no entanto, algumas notas que nos fazem pensar.

Nota 1. Na segunda-feira, dia 2, saíram os resultados dos exames nacionais. Aparentemente, os exames foram mais difíceis do que no ano passado, o que não seria problemático se os exames do ano passado não pudessem ser utilizados para acesso ao ensino superior neste ano.

Esta situação cria uma injustiça relativa muito grande, uma vez que as médias desceram substancialmente. Alunos que não entraram, por exemplo, em medicina no ano passado têm agora uma vantagem comparativa clara face aos alunos deste ano.

A meu ver há, pelo menos, duas formas de resolver a situação. A primeira, seria obrigar todos os alunos que se querem candidatar num determinado ano a fazerem os exames desse mesmo ano. A segunda, seria uma normalização das notas a uma média pré-determinada pelo histórico que só seria alterada quando, numa série longa, se percebesse que as notas, devido à qualidade do ensino e dos alunos, estivessem consistentemente a subir.

Nota 2. Tenho estado pouco atenta à evolução da Covid. Não por acreditar que o problema esteja resolvido, longe disso, mas por sentir que preciso de descansar, de ter férias, desta situação distópica que nos assolou. De qualquer forma, o plano de vacinação parece continuar a correr bem.

Teremos um arranque de ano letivo muito mais tranquilo e arriscaria a dizer mais normal. Mas ainda estamos longe de nos vermos livres desta situação.

Questiono-me, aliás, se algum dia estaremos. Se o novo normal não será gerirmos a nossa vida no meio de pandemias, de medos, de incêndios, de inundações, de calor escaldante no Canadá, e quem sabe, neve no equador!

Nunca como agora tivemos uma evidência tão clara do mal que fazemos ao planeta. E sendo já tarde e com alguns danos irreversíveis, temos obrigação de parar, de fazer efetivamente diferente para que, pelo menos, a distopia seja apenas esta, a que já conhecemos.

Nota 3. O ‘arranque’ do ano vai trazer alguns factos políticos interessantes. Muito se pode alterar, ou pelo contrário, tudo pode ficar na mesma.

Temos umas eleições autárquicas à porta, que poderão confirmar um PSD pouco vigoroso, um PS sobrevivente e, infelizmente, um Chega que não desaparece. Logo de seguida, teremos a discussão de mais um Orçamento do Estado (OE).

Vai ser interessante perceber como é que o resultado das autárquicas condicionam as posições e as forças negociais, sobretudo à esquerda. Há uma possibilidade, que me parece pequena, deste OE forçar uma crise política. Mas com ou sem crise, acredito que o início do ano nos poderá trazer a tão falada (e esperada, por alguns) remodelação.

Com estas três notas me despeço durante este mês silly. Voltarei em setembro para mais opiniões microscópicas do nosso contexto macro.

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