O regime venezuelano contemporâneo exemplifica a transformação de estruturas estatais em sistemas híbridos onde a fronteira entre autoridade política e economia criminosa se dissolve. Ao contrário dos cartéis clássicos que operam à margem da lei, a Venezuela evidencia uma etapa superior: setores centrais do aparelho estatal integram e gerem redes ilícitas como parte funcional do regime.
Esta simbiose entre poder político e hierarquia militar encontra expressão máxima no Cartel de los Soles, redes de tráfico infiltradas nas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB). O nome refere-se às insígnias dos generais que protegem o escoamento de cocaína. A militarização do Estado, com o controlo de portos e fronteiras, institucionalizou o crime, tornando a droga uma fonte de rendimento e lealdade essencial num país sob sanções.
Contudo, a Venezuela não é uma anomalia isolada, mas o expoente de uma tendência global de Estados-Máfia.
O caso da Guiné-Bissau é alarmante pela sua cooperação estratégica com Caracas, num contexto em que o país volta a surgir em casos como a apreensão de 5 milhões de euros num voo de Estado guineense em 2025.
Tenhamos presente que ambos os países têm relações relevantes e laços populacionais profundos com Portugal.
Vimos, também, dinâmicas semelhantes na Síria, onde o regime de al-Assad industrializou o Captagon para sobreviver; embora a sua queda em 2024 tenha reduzido a produção em 80% em 2025, o risco de sucessão criminosa persiste.
No Afeganistão, o pragmatismo atravessa ideologias: apesar da queda no cultivo do ópio, os Talibã converteram o país num centro de metanfetaminas para garantir divisas que o sistema bancário formal recusa.
Esta realidade gera uma tensão inevitável na ordem internacional. Para além da ideologia e dos interesses económicos, há uma causa real para as reações punitivas de potências externas, como a dos EUA.
Quando um Estado instrumentaliza o tráfico, inflige danos diretos na segurança interna das sociedades de destino. Sob esta ótica, a reação adquire uma legitimidade de defesa: se um regime é responsável direto por uma ameaça que corrói a segurança e o tecido social alheio, a fronteira entre crime e casus belli torna-se ténue.
O dilema é, porém, complexo. No caso da Guiné-Bissau, Portugal tem optado por um equilíbrio prudente. Em nome da estabilidade governativa e das populações, Lisboa tem evitado medidas de força contra os atores que alimentam o narcotráfico a partir de Bissau, limitando-se quase sempre à investigação criminal em território português.
É o conflito entre anular uma ameaça e o risco de desestabilizar ainda mais uma nação fragilizada.
Em suma, não estamos perante um “Estado falhado”, mas perante a sua metamorfose num aparelho que governa em associação estrutural com economias ilegais. Trata-se de um Estado que não falha em combater o crime, mas que o redefine em função dos interesses de uma certa elite.
É nesta inversão da lógica estatal que reside a natureza corrosiva destes sistemas: o crime não é o inimigo do Estado, é o seu novo pilar de sustentação, uma herança maldita que tende a sobreviver mesmo quando os seus arquitetos caem.



