As recentes tempestades que assolaram o país, com particular incidência na região centro, provocaram um impressionante rasto de destruição e disrupção. Contudo, no plano da análise macroeconómica, é imperativo distinguir entre a perda de riqueza e o impacto no Produto Interno Bruto (PIB). Embora o choque humano e material seja inequívoco, a leitura económica dos acontecimentos revela nuances que importa clarificar.

O primeiro ponto prende-se com a geografia da atividade. Apesar da relevância industrial das regiões de Leiria e Coimbra, representam “apenas” perto de 8% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) nacional. Sendo uma região com um pilar exportador fortíssimo, a paragem de alguns dias e os danos em unidades produtivas — como no setor das celuloses ou moldes — têm impacto, mas não paralisam o motor económico do país. Mesmo tendo em conta o fecho da A1, a ausência de danos críticos em outros eixos logísticos críticos como aeroportos ou portos e o facto de estarmos em época baixa para o turismo mitigam a contração do produto.

O ponto fulcral, contudo, é a distinção entre variáveis de stock e de fluxo. O património, as infraestruturas e os equipamentos destruídos constituem riqueza acumulada — um stock. O PIB, por definição, é uma variável de fluxo que mede a produção num determinado período. A destruição de capital, por si só, não subtrai ao PIB do ano; o que pode subtrair é a interrupção da atividade que esse capital gerava.

É aqui que surge o paradoxo da reconstrução. O esforço para reparar danos, reconstruir habitações e reabilitar empresas e infraestruturas gera atividade económica. A mobilização de seguros, poupanças e fundos públicos (como o Plano de Reconstrução e Resiliência – PTRR) acaba por alimentar o setor da construção e serviços conexos. Na prática, a destruição de stock (perda de riqueza) poderá ser compensada por um incremento no fluxo (PIB).

Haverá, naturalmente, ganhadores e perdedores. Perdem os que viram os seus ativos destruídos e cujas indemnizações poderão não cobrir a totalidade do dano real; ganham os agentes envolvidos na reconstrução. Em termos líquidos, o impacto das tempestades no PIB de 2026 poderá ser nulo ou até ligeiramente positivo para o crescimento anual. A resiliência económica de 2026, apoiada na aceleração das exportações, num mercado de trabalho robusto e no consumo privado, mantém-se, por agora, intacta.