A tomada do Capitólio

Os Republicanos devem ponderar se querem continuar a ser um grande partido fiel ao consenso constitucional e aos valores matriciais que os EUA ostentam ou, pelo contrário, ceder às pressões das suas facções radicais.

A invasão do Capitólio é um daqueles episódios que se pode descrever recorrendo ao lugar comum de que a realidade superou a ficção. A vandalização do órgão legislativo de uma das mais antigas e sólidas democracias do planeta gerou óbvio espanto e tristeza em todos aqueles defendem a Liberdade.

Foi um acto insano, que assusta pelo aparato mas, mais ainda, por aquilo que representa: o ataque ao Congresso não foi fruto somente da irracionalidade momentânea das massas iradas, antes resultado de uma forma de fazer política, assente na radicalização, na demonização do outro e no medo, que Donald Trump normalizou. Como dizia Polónio acerca do comportamento instável de Hamlet, “tough this be madness, yet there is method in it”.

Entre as elites republicanas, o apoio expresso de uns e o silêncio de outros, apenas contrariados pela contestação de poucos, permitiu ao histriónico presidente fazer das bandeiras das franjas radicais do GOP o discurso oficial do partido. Confundidas pelo ruído dos apoiantes de Trump, convenceram-se de que a nação republicana se rendera à sua retórica inflamada, o que garantiria ao partido uma longa estadia no poder.

Os factos demonstram, porém, o equívoco: embora vencedor em 2016, Trump conquistou menos votos do que Clinton, vitória que não pode, portanto, ser considerada um feito de monta, até porque que a candidata democrata não era consensual no seu partido; em Novembro passado foi derrotado, alcançando a proeza de ser o quarto presidente na história dos EUA a perder uma reeleição; por fim, não terá sido alheio à derrota republicana nas eleições da conservadora Georgia para o Senado. A receita para a vitória resultou, no fim de contas, na perda da presidência e da maioria na câmara alta.

Mas o equívoco estratégico dos barões do GOP teve outras consequências internas, não menos graves. Ao renderem-se a Trump e às suas hordas, os Republicanos puseram de lado princípios e causas. Autoproclamados lídimos herdeiros dos Pais Fundadores, aceitaram o desafio à Constituição lançado pela contestação do presidente aos resultados das eleições, livres e justas.

Militantes do partido da Lei e da Ordem, permitiram que Trump usasse de forma abusiva os seus poderes, ao inviabilizarem a sua destituição e não se propuseram proceder ao seu pronto afastamento na sequência do incitamento pelo chefe de Estado à arruaça e à subversão.

Simultaneamente, o apoio incondicional a Trump comprometeu o relacionamento institucional com os Democratas e desacreditou os EUA aos olhos do mundo, circunstância que só não terá repercussões graves porque o país é suficientemente poderoso para não ter que se preocupar demasiado com a sua reputação.

Superada a tempestade, o GOP deve entrar em reflexão, devendo ponderar se quer continuar a ser um grande partido fiel ao consenso constitucional e aos valores matriciais que os EUA orgulhosamente ostentam ou, pelo contrário, ceder às pressões das suas facções radicais, apoiando novamente Trump ou uma qualquer fotocópia deste e tornar-se, assim, um partido anti-sistema e com vocação golpista.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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