A torre da Gronelândia

A soberania não é um bem passível de transação, nem de negócio. Antes representa a manifestação de uma legitimação de um povo, que dispõe de uma vontade própria.

O uso do Twitter parece generalizar-se enquanto instrumento de comunicação global. A visão de uma Trump Tower implantada em pleno território dinamarquês, apesar da promessa do presidente dos Estados Unidos Donald Trump de que não se ergueria ali tal edifício, além de ter suscitado sorrisos amarelos encerra uma perspetiva de domínio e de crença de que ter o dinheiro permite tudo. E que tudo se vende.

Felizmente, as autoridades dinamarquesas responderam com ironia a esta ideia completamente peregrina. A grande referência de compra de um território reconduz-nos ao negócio entre americanos e russos há quase século e meio, mais propriamente em 1867, aquando da venda do Alasca, sendo que os russos corriam sério risco de perda daquele território. À época, a transação foi considerada absurda, mas então o mundo e as relações entre Estados eram bem diferentes do que se passa na atualidade e as circunstâncias que rodearam o negócio eram bem distintas.

Pensar que no século XXI um Estado soberano como é o Reino da Dinamarca – membro de pleno direito da União Europeia – se disponibilizava para vender um território a um outro Estado, pertencente a outro continente e considerando a alienação mesmo parcial é mais do que absurda. A soberania não é um bem passível de transação, nem de negócio. Antes representa a manifestação de uma legitimação de um povo, que dispõe de uma vontade própria e que o caracteriza enquanto entidade distinta do seu vizinho.

Com dificuldade se entende esta proposta. Inicialmente pensou-se que seria mais um ensaio, uma brincadeira, um mero exercício de um brainstorming sem tema, do que uma proposta entre Estados igualmente soberanos. Mas quando se adia uma visita de estado, na sequência da recusa de admitir considerar tal proposta e se atentam às reações do outro lado do Atlântico, percebe-se que tal foi considerado seriamente realizável e reconduzido à dimensão de uma mera operação imobiliária.

Claro que do ponto de vista do lado de lá, entre o acesso a novos recursos naturais, a eventuais novas rotas no Ártico e a uma privilegiada nova âncora geoestratégica, o negócio seria muito interessante. Na perspetiva europeia só poderia constituir mais uma manifestação de falta de respeito e consideração pelos parceiros europeus, que aliás, muito se tem sentido neste mandato presidencial americano.

Qualquer político nacional que propusesse tal operação rapidamente deixaria o seu posto, e trata-se na nossa opinião de uma ideia sem qualquer sentido.

Admitir a venda da Gronelândia seria o mesmo que caucionar uma solução financeira para a crise da Crimeia, ou admitir que se pudesse comprar um território, declarando de seguida a respetiva independência, ou comprar um país e até ali estabelecer uma base para os seus negócios que passariam a ser de Estado, mesmo que se tratasse de vender armas ou drogas, legitimados por uma ordem nacional que renegasse a ordem internacional estabelecida.

Esperamos que esta proposta não germine. Como podemos reclamar o controlo de fronteiras e o exercício de poder dentro delas, se admitirmos negócios que alienam a soberania territorial? Evitamos guerras comprando nações, ou defendemos os territórios que nos caracterizam e que os povos implantam para ali construir futuro.

O ponto de equilíbrio da ordem internacional não pode evoluir nos caracteres de um tweet. Haja respeito pelo povo e pelos respetivos dirigentes. Ainda não chegámos a um ponto em que tudo é permitido. Esse será o ponto do não retorno.

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