“A transformação da ocupação tradicional das cidades levou ao escorraçar das pessoas do centro”, defende bastonário da Ordem dos Engenheiros

Apesar de considerar que o futuro do país está nas mãos da geração mais bem preparada dos últimos anos, Mineiro Aires, mostra-se apreensivo quanto à ausência de estratégias para responder a problemas que afetam diretamente o dia-a-dia dos portugueses.

Garante não estar pessimista quanto ao futuro do nosso país, porém, o bastonário da Ordem dos Engenheiros não esconde a apreensão quanto “à visão política e à falta de uma união no que toca a interesses comuns que deveriam ser objeto de pactos de regime”. Carlos Mineiro Aires, à margem da cimeira Lisbon CES – Civil Engineering Summit 2019, depois de ter escalpelizado o mais polémico dos assuntos da agenda da Engenharia Civil em Portugal – a construção do Aeroporto do Montijo (ver entrevista na edição de 27 de setembro) –, e de fazer um fiel retrato da evolução do setor da construção civil e dos desafios que os engenheiros civis ainda enfrentam no pós crise, reflete ainda sobre outros temas de relevo para o país, para os quais pede urgência na resolução.

Está pessimista quanto ao futuro de Portugal?

Não, não estou. Temos de acreditar que criámos uma geração que está altamente preparada para desenvolver o país. É uma geração única que está muito bem preparada pelas nossas universidades e escolas. Até costumo dizer que até os polícias falam inglês. Antigamente, perdoem-me as forças de segurança, mas um GNR ou um PSP eram pessoas com menos qualificação, e hoje, podemos-nos orgulhar da forma como todos os agentes se comportam, quer no aprumo, quer na forma como se dirigem às pessoas. Em tudo, houve mesmo uma mudança radical. E isso é civilização. Temos que reconhecer e estar agradecidos.

Temos hoje um país com pessoas muito mais dedicadas, com consciência, e as medidas que surgem, como as coimas sobre as beatas (na certeza de que daqui a uns anos não haverá beatas no chão), são saltos qualitativos. Por isso, não tenho razões para estar apreensivo em relação ao futuro, os países são aquilo que a política faz e o que são as grandes linhas. Posso estar apreensivo em relação à visão política e à falta de uma união no que toca a interesses comuns que deveriam ser objeto de pactos de regime. Deveria existir uma série de coisas intocáveis neste país, que ninguém questionasse. Teríamos um programa aprovado, que seria revisto de 10 em 10 anos, ou de 20 em 20 anos, e durante esse tempo era intocável. O que este país precisa, sobretudo, é de estratégias para o futuro.

Que temas o deixam então mais apreensivo?

Temos de facto algumas questões importantes, nomeadamente a balança de pagamentos e o endividamento externo. Quanto à balança, temos de criar valor acrescentado e bens transacionáveis porque sem isto vamos ter um problema: teremos sempre a base do diagrama das nossas receitas, um pouco empenada, digamos. Porque hoje as exportações aumentam entre os bens tradicionais, ainda que tenhamos áreas novas como a metalurgia, e até estamos a dar passos muito promissores nas áreas tecnológicas, em que já começamos a exportar muito, mas estamos a viver um momento conjuntural como no caso do Turismo, que também trouxe grandes problemas sociais ao país. A transformação da ocupação tradicional das cidades, com a recuperação que deu origem à reabilitação urbana e a grandes investimentos, (alguns deles, porque outros são clandestinos), levou ao escorraçar das pessoas do centro das cidades. A consequência mais visível disto, a crer nas notícias, e eu falo sempre com base nas notícias para não dizerem que são invenções minhas, faltam 40 mil quartos para os jovens que foram colocados no ensino superior, e os que os conseguem arranjar pagam uma fortuna. E isto porque não podem ir ocupar um quarto em regime de alojamento local e pagar 200 ou 300 euros, ao dia. E eu pergunto: que resposta foi dada a esta questão? A resposta, dada o ano passado, partiu do ministério da Educação e das reitorias que decidiram avançar com uma série de residências universitárias. Mas sabemos bem como funciona a contratação pública neste país e as exigências todas que faz. Entre a contratação e a obra estar acabada estamos sempre a falar de três a quatro anos. É possível que uma ou outra surjam antes porque serão de menor dimensão. Este é mesmo um problema bicudo.

Mas isto leva-nos a outros aspetos graves: os salários continuam miseráveis, e começamos logo pelos dos engenheiros. Os jovens quando se casam não têm filhos, porque só tem filhos quem tem pais ou avós ricos que depois pagam os estudos às crianças. O que leva à descida da natalidade, claro. Mas também andam aí umas fantasias, e apesar de não ser contra a solução sou contra a fantasia, de impedir a entrada de carros nas cidades e obstaculizar tudo sem haver soluções antes. Se eu vivesse na Lapa e tivesse de ir trabalhar, por exemplo, na Avenida Almirante Reis ou Marquês do Pombal, seria pacífico e até podia ir a pé. Agora para quem vive em São João da Talha ou em Vila Franca de Xira e que de manhã tem de levar a criança à ama, porque muitos não têm dinheiro para os colégios, e vir a correr para a Lisboa e depois têm de ir a correr também para conseguir voltar à ama às 19 horas, como é que conseguem fazer este circuito em transportes públicos? Já houve alguma medida para o estabelecimento de parques desincentivadores da entrada de carros nas cidades com preços baixos de forma a que as pessoas deixem os carros e sigam no metropolitano? Fui presidente do metropolitano e na altura propus que o quartel dos Ralis fosse transformado num grande silo automóvel para permitir que as pessoas apanhassem o metro na Encarnação. E o metro até atravessa a Segunda Circular em mais três sítios. Nunca me deram ouvidos e, até hoje, não existe uma verdadeira política desincentivadora da utilização dos carros na cidade. E a alternativa que há é a punição, criando, cada vez mais, parques pagos e uma oferta de transportes públicos que não é razoável. E cada vez que vou a uma cidade na Europa, percebo que ninguém pensa em usar carro. Mas aí viajamos confortavelmente num comboio, não andamos como sardinhas em lata no metro ou no autocarro. Porque existe uma boa rede articulada. Em Portugal, a opção é começar pelo fim, pela punição, ou seja, depois do animal estar domado, é tentar minimizar as respostas.

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