A transição energética como motor para a recuperação económica

Na hora de reconstruir a economia há que conciliar os interesses individuais com o coletivo, dando primazia às soluções de baixo carbono e elevada eficiência.

O surto de Covid-19 veio trazer enormes desafios. O setor da energia, fruto das medidas de contenção da pandemia do novo coronavírus um pouco por todo o mundo, tem sido, e continuará a ser, severamente afetado pela redução de consumos, mas será também um importante motor de recuperação e preparação das economias para o futuro.

A verdade é que esta pandemia veio confrontar a humanidade com a fragilidade do nosso modo de vida. E, nunca como hoje, os cidadãos estiveram tão conscientes da necessidade de tratar responsavelmente da nossa casa comum.

Em breve venceremos a pandemia, mas o grande problema ambiental com que a humanidade está confrontada persistirá, pelo que os planos de recuperação e transformação deverão privilegiar o combate às alterações climáticas, contribuindo para ajudar as economias e o tecido empresarial a concretizar a transição energética carbono zero.

Em Portugal, e apesar dos avanços dos últimos anos, há muitas possibilidades para explorar, dos transportes aos edifícios, adotando, por exemplo, soluções de climatização inteligentes, com maior eficiência e recorrendo a fontes de energias mais limpas.

É o exemplo das redes urbanas de frio e calor, uma solução eficiente e que substitui os sistemas convencionais de aquecimento e de climatização, como caldeiras, esquentadores ou aparelhos de ar condicionado. Com este tipo de infraestruturas, é possível aproveitar o calor residual de uma indústria para aquecer ou arrefecer os edifícios situados nas proximidades e utilizar tecnologias de elevada eficiência, como acontece no Parque das Nações, em Lisboa. Ou utilizar energia geotérmica, resíduos de biomassa florestal e outras energias renováveis para aquecer um quarteirão, um bairro ou uma cidade, de que são exemplo milhares de redes em toda a Europa.

Mas há muitas mais possibilidades nomeadamente ao nível da promoção e disseminação da produção descentralizada de eletricidade, inspirando um sistema elétrico fortemente descarbonizado, descentralizado e digitalizado. E, muito importante numa altura como a que vivemos, com resultados reais e visíveis para os consumidores e empresas, desde logo na redução dos custos energéticos, aumento da eficiência energética e, consequentemente, da competitividade da economia nacional.

É certo que mudar para uma sociedade ambientalmente sustentável rumo ao carbono zero não se faz de um dia para o outro. Contudo, como realçaram recentemente dez ministros da União Europeia, entre os quais o Ministro do Ambiente e da Ação Climática de Portugal, numa carta dirigida à Comissão Europeia, “a recuperação não se pode fazer a cometer os mesmos erros do passado”.

Na hora de reconstruir a economia há que conciliar os interesses individuais com o coletivo, dando primazia às soluções de baixo carbono e elevada eficiência. Porque, mais do que apenas energia, são soluções que promovem novas formas de viver e trabalhar. E, acima de tudo, que asseguram o nosso futuro coletivo.

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