A tua família é pior que a minha

No final da história, o PSD é o que sai pior. Rui Rio voltou a dar uma mãozinha à esquerda quando não disse o que todos queríamos ouvir: comigo acabou o nepotismo.

Decorridas duas semanas do início do caso “Familygate”, como é que chegámos a este ponto em que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa parecem uma frente unida contra o nepotismo que o próprio primeiro-ministro apadrinhou? E, já agora, como é que o PSD consegue sair tão mal ou pior do que o próprio PS?

À esquerda do PS, os partidos foram simplesmente coniventes. Sem acesso às cadeiras do poder, como em tantas outras matérias, ficaram a assistir em silêncio (como a manutenção da austeridade reconhecida pelo ministro das Finanças numa entrevista ao  Financial Times).

Restava a direita. E o que parecia a oportunidade de ouro do PSD depois de tantas perdidas acabou por ser um cavalo de Tróia. “No PSD também acontece, mas o PS é pior”, disse o líder do PSD, que preferiu reagir ao embaraço de Cavaco Silva, Marques Mendes e Paulo Rangel. Tão mau ou pior que nepotismo é hipocrisia sobre nepotismo. E, por isso, o único mais ou menos hábil a sair desta espiral foi Marques Mendes, que se portou da única maneira aceitável: foi um erro nomear familiares no passado, mas os erros do passado não justificam os do presente.

Era isto e só isto que Rui Rio deveria ter dito, em vez de pedir aos portugueses que escolham entre mau e menos mau. Nem nisto foi capaz de – e provavelmente podia –capitalizar a única característica politicamente vantajosa que se lhe reconhece: é um homem sério. E isso vale votos.

Mas Rui Rio voltou a dar uma mãozinha à esquerda quando não disse o que todos queríamos ouvir: comigo acabou o nepotismo. E remata com reservas sobre legislar esta matéria quando o Presidente tomou de assalto a agenda mediática forçando uma revisão da Lei ainda antes das legislativas que, obviamente, não tem condições de acontecer.

Claro que a lei não é alterável, pelo menos não à pressa e o Presidente sabe bem disso. Mas mais vale que o porta-voz dessa ideia seja Marcelo do que deixar o espaço vago para os Andrés Venturas da política nacional.

António Costa, genial como sempre na retórica política ou no spin, como se diz em comunicação – surge como o mau aluno arrependido: digam-me como mudar a lei que nós avançamos. O debate da semana já nem foi o PS, foi Marcelo e a sua aparente obsessão com a urgência de nova legislação que afaste o populismo.

No final da história, o PSD é o que sai pior. Rui Rio aparece ao lado dos que aparentam querer manter tudo como está, mesmo que não tenha sido isso o que disse. Costa aparece como o arrependido que quer ajuda para ver a luz que não viu quando permitiu que o seu Governo fizesse este exercício vergonhoso de favor político. Marcelo, como sempre, fez o que melhor sabe fazer: exerceu o populismo como ninguém e foi o Presidente de todos os portugueses.

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