A UE como a conhecemos já não existe

Perante a pressão dos EUA e da Rússia, o mais certo é que a União Europeia se fragmente para se reorganizar. Veremos quais os países que ficam de fora e os que entram quando o momento chegar.

A primeira página da “Le Point” de 21 de Junho tinha uma fotografia do presidente dos EUA e o título ‘Merci Donald’. De acordo com a linha editorial da revista, o título explica-se não por se simpatizar com Trump, mas por este ser uma excelente oportunidade para a Europa se reorganizar.

Numa pequena entrevista publicada nas páginas centrais da revista,  Joschka Fischer, o ministro do Negócios Estrangeiros da Alemanha do governo de Gerhard Schröder e que escreveu um novo livro intitulado “O declínio do Ocidente”, defende que só uma União Europeia a várias velocidades pode contrapor a pressão que vem da América de Trump, bem como a ameaça da Rússia e da China. Fischer, para quem a ordem mundial do pós-guerra terminou de vez na última reunião do G7 no Canadá, considera que é uma ilusão acreditar que uma Europa a 27 (já sem o Reino Unido) pode caminhar no mesmo passo. A UE está sozinha e deve agir em conformidade.

De acordo com o “El País” do passado dia 25 de Junho, o partido de Macron, La République En Marche!, anunciou um acordo com os Ciudadanos de Albert Rivera e o Partido Democrático de Matteo Renzi para a existência de uma plataforma comum nas próximas eleições europeias. Também no mesmo jornal e na mesma semana, o novo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, concedeu uma entrevista defendendo um novo eixo europeu, Madrid-Paris-Berlim, no qual Portugal estaria incluído. A sua ideia vai ao encontro das intenções de Emmanuel Macron que, desde que se candidatou à presidência francesa, tem defendido uma Europa a várias velocidades.

A seguirem por diante as teses de Macron, e agora de Sánchez, o mais provável é que a UE se parta de vez. Como disse Fischer, a 27 não dá. Não há respostas concretas como se viu no último Conselho Europeu sobre um assunto tão urgente quanto as migrações. Perante a pressão dos EUA e da Rússia, o mais certo é que a União Europeia se fragmente para se reorganizar. Quais os países que ficam de fora e os que entram ver-se-á quando o momento chegar, sendo que o critério será a aceitação de uma liderança efectiva da França e da Alemanha.

A fragmentação da União Europeia colocará problemas aos EUA que Donald Trump por enquanto despreza. É que a UE a 28 não existe apenas como bloco económico, sendo também um agregador dos aliados norte-americanos no continente. Sem uma União alargada, a Polónia, os países bálticos, a Bulgária e a Roménia cairão novamente na esfera política do Kremlin. É muito provável que uma UE reduzida não tenha capacidade para absorver a Grécia. A resolução da questão geopolítica que esta coloca terá de ser encarada por Washginton. É que por muito que Trump não queira, quem semeia ventos colhe tempestades.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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