Dificilmente o contraste entre os dois candidatos que passaram à segunda volta das eleições presidenciais poderia ser maior. E, em certo sentido, embora seja pouco provável que seja eleito a 8 de Fevereiro (pelo menos se as taxas de rejeição a cada candidato apuradas na campanha para a primeira volta forem um indicador minimamente fiável), Ventura já terá ganho o que queria ganhar.

Uma comparação entre os resultados de Ventura nesta primeira volta e os do Chega nas eleições autárquicas reforça a perceção de que este último é, ainda, um partido mais ou menos unipessoal vivendo à boleia de um líder carismático. E, nesse caso, parece certo que aquilo que o líder procura é poder executivo. A esse respeito, e sendo claro que a via mais evidente para o obter seria sendo eleito primeiro-ministro ou integrando um executivo em coligação, um eventual sucesso nesta segunda volta corresponderia, com a maior das probabilidades, a uma tentativa de presidencialização do regime: os cenários de uma revisão constitucional feita exclusivamente à direita ganhariam força; especular-se-ia constantemente sobre a possibilidade de o executivo atual não cumprir a legislatura; e a ideia de uma “quarta república” consolidar-se-ia.

Pelo caminho, tudo serve a Ventura para tentar ganhar capital simbólico, mobilizar as bases, aumentar a sua influência e tentar impor a sua agenda. Passar à segunda volta das eleições presidenciais, beneficiando da batalha fratricida entre Gouveia e Melo e Marques Mendes e das ondas de choque do escândalo de alegado assédio que pesaram sobre Cotrim de Figueiredo, e poder autoproclamar-se “líder da direita” é, a este respeito, vitória suficiente. Pouco importa, de resto, que a autoproclamação possa ser, neste momento, enganadora. Sendo falsa, tal autoproclamação é, na verdade, performativa, visando aumentar, pelo efeito de eco criado na bolha dos convertidos, as condições de possibilidade para tornar mais próxima a sua concretização efetiva, numa espécie de efeito de “profecia autorrealizada”. O objetivo há-de ser esse; se o conseguirá ou não, é outra questão.

Um contraste exemplar

Se a análise acima estiver mais ou menos acertada, poder-se-á aventar que o candidato Ventura estará na campanha da segunda volta com a descontração típica de quem não tem grande coisa a perder – a não ser que sofra uma derrota esmagadora. O curioso é encontrar no seu oponente e, à data em que escrevo estas linhas, provável vencedor, uma figura diametralmente oposta à sua.

Ao contrário do que se passou à direita, António José Seguro beneficiou da concentração de voto à esquerda. É possível admitir que, para boa parte do eleitorado mais à esquerda, esse voto tenha sido concedido mais por razões táticas do que por convicção, mas o que é certo é que, juntamente com alguma simpatia que com certeza granjeia na direita moderada e que lhe terá valido votos desse espaço político, a concentração funcionou.

Seguro é, em certo sentido, o anti-Ventura. Se há virtudes em torno das quais o ethos de Seguro se consolidou, e pelas quais ele é reconhecido publicamente, essas são as da honestidade e da moderação, o que se traduz numa postura marcada por uma ponderação cheia de nuances e uma valorização da figura do consenso e do equilíbrio. Compare-se isso com a persona de Ventura no espaço público: o personagem político do conflito, da mobilização de afetos dos descontentes, de alegada oposição a um sistema (do qual emana) e de contestação dos valores e normas de um regime que visivelmente quer deixar para trás. Onde Seguro simboliza a figura de um diálogo permanente tendo em vista a possibilidade de estabilidade, Ventura incorpora a disrupção; enquanto Seguro qualifica a sua posição como sendo humanista e tenta manter um discurso de respeito pela diversidade, Ventura não hesita em fazer a apologia dos alegados “portugueses de bem”, alimentando o seu movimento com a força agonística do ressentimento.

Numa eleição personalizada, como é, por excelência, a de um Presidente da República, estas considerações sobre o perfil dos candidatos não são despiciendas. Mas, como é evidente, nesta segunda volta a escolha vai para lá da discussão sobre o carácter, estilo ou substância política de cada um dos candidatos. É que, até certo ponto, a avaliação do regime que emanou de Abril de 1974 e dos valores democráticos em torno dos quais se consolidou, também vai estar em avaliação nas urnas.

Tem razão, portanto, quem coloca nestas eleições a ênfase nas questões relativas aos valores democráticos e, sobretudo, na possível escolha entre uma democracia liberal ou “iliberal”. É evidente a proximidade de Ventura ao modelo de democracia iliberal protagonizado por regimes como o húngaro durante os mandatos de Viktor Órban no poder. De resto, a tendência para um crescente desrespeito pelos direitos individuais, separação de poderes, ou normas do direito internacional tem sido reforçada no segundo mandato de Trump. E não é despicienda a influência do exemplo de Trump nos seus aliados políticos europeus.

A direita liberal olha-se ao espelho

Independentemente do resultado destas eleições, e mesmo que se confirme neste momento a provável vitória de Seguro, aquilo a que estamos a assistir é a uma dinâmica de consolidação da tendência para a direita populista ir fagocitando a direita moderada, num contexto de crescente fragmentação.

Não é de se descontar, por isso, a possibilidade de Portugal atingir, dentro de algum tempo, o momento político a que França chegou há mais de duas décadas, aquando do confronto entre Chirac e Le Pen em 2002. Nesse sentido, é possível que a última trincheira se trace mesmo em torno da fronteira dos valores democráticos.

Neste contexto, e tendo em conta o cenário político dos últimos anos, parece evidente que a força da convicção democrática e liberal da direita está neste momento a ser testada. Reconhecem-se, ou não, os seus eleitores, no regime que temos? Independentemente da tática de não endossar votos na segunda volta assumida por Marques Mendes, Cotrim de Figueiredo ou Luís Montenegro, é esta questão fundamental com que esses eleitores são neste momento confrontados. Da resposta que acabem por lhe dar dependerá, em boa medida, o destino político do país no curto prazo.