A passagem da tempestade Kristin pelo país deixou um rasto de destruição que nos recorda, da forma mais dura, a realidade inegável das alterações climáticas e da urgência de nos prepararmos coletivamente, em comunidade. O número de sinistros já registados, e o que isso representa em termos financeiros, é muito mais do que contabilidade ou estatística: representa o impacto profundo que estes eventos extremos e altamente disruptivos têm sobre as nossas famílias, as empresas e a economia – o país como um todo.
É um erro olhar para a tempestade Kristin como um evento isolado. Entre 1980 e 2023, os eventos climáticos extremos causaram perdas económicas superiores a 13,4 mil milhões de euros em Portugal, segundo a Agência Europeia do Ambiente. O setor segurador, nos últimos 20 anos, pagou mais de mil milhões de euros em indemnizações decorrentes destes fenómenos, sendo que mais de 60% deste valor foi liquidado apenas na última década. E não esqueçamos que, no contexto europeu, Portugal é um dos países mais expostos aos riscos climáticos. Os dados não enganam: a frequência e a intensidade das catástrofes naturais estão a aumentar de forma exponencial.
Ainda mais preocupante é o facto de os valores indemnizados representarem apenas uma pequena fração das perdas económicas totais. Esta lacuna de proteção revela a vulnerabilidade da sociedade e demonstra que o modelo tradicional de prevenção e proteção, por si só, não é suficiente para responder à magnitude do desafio que enfrentamos – não só à escala de Portugal, mas global.
Em Portugal, estas lacunas de proteção a nível macro têm sido evidenciadas em várias situações recentes, onde o setor segurador desempenha um papel fundamental ao ser chamado pelo Estado a intervir. Exemplos disso incluem a criação do Fundo de Emergência em 2017, em resposta aos incêndios de Pedrógão, e do Fundo Solidário em 2021, face à pandemia Covid-19. Estas iniciativas demonstram a importância de colaboração entre o setor público e o setor segurador para garantir uma resposta eficaz perante grandes desafios coletivos.
É por isso que, na Zurich Portugal, vemos como um passo relevante a necessidade de criar um sistema nacional integrado de proteção contra catástrofes. A criação de um fundo nacional de catástrofe não é apenas uma recomendação: é uma urgência estratégica para o país. Um fundo robusto, assente em princípios de solidariedade, prevenção e partilha de riscos, é a única forma de garantir a resiliência do país e uma recuperação mais rápida e eficaz perante uma catástrofe de grande escala.
O setor segurador é, e quer continuar a ser, um parceiro estratégico e um aliado ativo neste esforço nacional. Mais do que compensar perdas, o papel do setor evoluiu para contribuir decisivamente para a prevenção e ajudar a evitar danos.
A resposta a estes desafios não pode ser apenas reativa. Exige uma abordagem integrada que envolva o Estado, as seguradoras, as empresas e os cidadãos num compromisso coletivo. É fundamental apostar na prevenção, investir em infraestruturas mais resilientes, educar para o risco e, neste contexto, reforçar as parcerias público-privadas, a bem da comunidade.
A tempestade Kristin e a depressão Leonardo vão passar, mas outras virão. A criação de um fundo nacional de catástrofe não é apenas uma questão de proteção financeira ou material. É um investimento na estabilidade social e económica das nossas comunidades. É tempo de agir, de forma colaborativa e decisiva, para construir um Portugal mais preparado e resiliente para os desafios do futuro. O setor segurador está pronto para fazer a sua parte.



