A Vaca Fria

Os dados relativos à pegada ecológica da indústria pecuária intensiva não são novos: a seguir aos combustíveis fósseis utilizados na energia e transportes, é a segunda indústria com maiores emissões de gases com efeito estufa a nível global.

As mudanças climáticas estão na ordem do dia. Tenho a impressão que não passará um dia em que, de uma forma ou outra, não se fale do tema – seja na comunicação social, por iniciativa de uma jovem inconformada que se tornou activista feroz ou dos partidos políticos que parecem ter percebido a importância, na sua comunicação, da “mensagem verde”, seja nas ruas, em protestos globais pelo clima ou em conversas informais sobre como nos dias áureos dos senhores do café na esquina o tempo não mudava assim de um dia para o outro – parece haver uma consciência quase-colectiva da emergência do problema. Surpreende-me, portanto, ver a resistência e indignação com uma medida que me parece excelente, exemplar e que só peca por tardia.

Os dados relativos à pegada ecológica da indústria pecuária intensiva não são novos: a seguir aos combustíveis fósseis utilizados na energia e transportes, é a segunda indústria com maiores emissões de gases com efeito estufa a nível global; a criação de gado bovino, em particular, consegue consumir mais recursos (solo, água, fertilizantes) do que a de gados suíno, ovino/caprino e de aves todas juntas – em parte porque a carne de vaca é das mais consumidas, mas também porque a pegada ecológica de 1kg de carne bovina é apenas comparável à de 1kg de cordeiro – ; e o consumo de carne per capita tem vindo a crescer nas últimas décadas, sendo que vários estudos recentes vêm apontando os riscos para a saúde de um consumo excessivo de carnes vermelhas.

Tudo isto são factores que deveriam condicionar a abordagem ao consumo de carne (que, para uma grande fatia das populações de países desenvolvidos, é diário); no entanto, ignorar todos estes aspectos poderá ser igualmente válido. Não me deixa incrédulo que uma pessoa ignore o risco acrescido de cancro, ou não seria eu também um fumador; nem me revolta que gerações mais velhas não estejam com grande vontade de abdicar de um belo bitoque pela preservação do ambiente em 2050 – eu próprio adoro um bom bife. Mas surpreende-me a idiotice de alguns que proclamam que se “quer proibir o consumo de carne de vaca”. Não, meus caros, continuam a ser livres de consumir o que quiserem – simplesmente não será servido pela cantina de uma instituição pública. Curioso que não vejo ninguém a insurgir-se contra a proibição de venda de tabaco nas universidades, que me parece em tudo em semelhante: pode-se consumir dentro do recinto, só não é vendido pela instituição em causa.

Também os agricultores e criadores de gado se mostraram “perplexos” com a decisão da UC, apelidando a medida de “alarmista” e baseada nas convicções de uma minoria “barulhenta”. Bem, a mim parece-me mais barulhento o rol de comunicados e críticas a uma decisão que representa 20 toneladas de um produto do qual são produzidas, anualmente, 94 mil toneladas em Portugal. Além disso, os criadores de gado tentam passar a ideia de que a pecuária é, na realidade, uma fonte de retenção de CO2 e pintam a actividade como ambientalmente preocupada e sustentável; tendo eu vivido nos Açores, “a terra das vacas felizes”, conheço mais ou menos esta preocupação com a sustentabilidade e bem-estar animal: vacas inseminadas artificialmente a quem retiram os bezerros à nascença, animas amarrados a uma corrente de pouco mais de 10 metros, habitando os mesmos pastos uma vida inteira, sujeitas às intempéries que se fazem sentir nos meses mais frios, ou o uso indiscriminado de fertilizantes e rações de origem duvidosa e com impactos ambientais visíveis na qualidade das águas do mar e das lagoas da região. A agricultura e pecuária biológicas, em que a sustentabilidade é realmente um factor determinante, poderá ser uma solução para os produtores de gado; no entanto, é ainda uma realidade pequena em Portugal, que, apesar de crescente, contabilizava, em 2015, nem 100 mil cabeças de gado bovino. E, além de melhorar a parte produtiva, é também preciso educar os consumidores, que parecem ignorar a origem da carne que consomem.

Outro dos argumentos na crítica nada alarmista da Aprolep e da CAP é a referência à dieta mediterrânica, reconhecidamente saudável. Ora, não sei a que dieta mediterrânica em específico se referem estes senhores, mas, na que eu conheço, a carne não tem um peso sequer comparável à de, por exemplo, as leguminosas. Sim, esses pequenos alimentos como o grão-de-bico, lentilhas, ervilhas ou feijão, ricos em proteína, hidratos de carbono e fibra que, surpresa!, até são facilmente cultiváveis nos nossos solos. Porque, ao contrário do que gostam de argumentar alguns radicalistas da carne, nem todos os pratos vegetarianos são à base de soja e abacate.

Como em tudo na vida, é preciso bom-senso e compromisso. Para aqueles a quem a carne é dispensável, óptimo, o pescetarianismo, vegetarianismo ou veganismo poderão ser soluções mais sustentáveis; para quem não consegue conceber a vida sem um bom bife à cervejeira ou um prego, tentem consumir estas iguarias espaçadamente e de origens certificadas. Mas não nos iludamos: a mudança dos nossos hábitos alimentares, sozinha, não irá salvar o ambiente. É um passo importante, mas que tem de ser acompanhado de uma menor utilização de combustíveis fósseis (seja nas fontes de energia que utilizamos ou no uso de mais transportes não-poluentes e/ou colectivos), eliminação dos plásticos descartáveis e desnecessários, adopção dos princípios de uma economia circular e de zero desperdício e, sobretudo, pela eleição de legisladores com preocupações ambientais e uma agenda de desenvolvimento sustentável. Porque o problema não se vai resolver só sem carne de vaca nas cantinas universitárias – especialmente se a alternativa for ir de carro ao McDonald’s (e usar palhinha para beber a Coca-Cola).

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