A vez da Suécia

Se os eleitorados europeus não arrepiarem caminho e mantiverem as opções que têm feito no plano dos respetivos Estados, a UE poderá ter de enfrentar mais uma crise.

A Suécia foi a votos no passado fim de semana. E o eleitorado decidiu não divergir subs­tancialmente do que vem sendo a escolha de outros colégios eleitorais de outros Esta­dos-membros da União Europeia (UE). Quando falta apurar um número residual de votos, as grandes tendências expressas nas urnas estão já definidas e consolidadas.

Os sociais-democratas na chefia do governo aparecem fortemente penalizados, obtendo os seus piores resultados em quase um século de história; atenuam o seu resultado se conside­rarem a coligação com os seus parceiros parlamentares de esquerda; o centro-direita não cresceu o suficiente para se transformar em alternativa credível ao poder em exer­cício; apesar disso, ficam a um escasso assento parlamentar da coligação de governo; os populistas de extrema-direita registam uma subida e um reforço notável da sua votação, em torno de um discurso securitário, contrário à imigração, limitador dos direitos soci­ais; e ou as duas coligações se entendem, ou nada se fará sem o voto extremista e po­pulista; foram guindados a uma posição charneira do sistema político, pese embora to­dos os demais partidos afirmem não estarem dispostos a aliar-se a eles.

Em síntese, a esquerda elegeu 144 deputados e a direita conservadora 143. A extrema-direita ficou como terceira força política no parlamento, com 62 assentos.

Para além destas, necessariamente breves, notas, outro aspeto deve merecer alguma atenção – a pulverização e dispersão do voto que acabou por beneficiar, sobretudo, os pequenos e vários partidos suecos. É a contrapartida óbvia da perda de voto dos partidos clássicos do sistema político sueco.

Prima facie, dir-se-á que este quadro eleitoral – tipificado por elevado risco de ingover­nabilidade que só poderá ser combatido com uma grande coligação central entre dois blocos que deveriam perfilar-se como alternativos, muito mais do que alternantes e, menos ainda, do que parceiros de coligação – não diverge significativamente de outros quadros eleitorais que têm saído de eleições em vários outros Estados da União.

Pena­lização de quem governa; censura aos partidos sistémicos; subida dos populismos naci­onalistas assentes num discurso xenófobo e anti-imigração; risco de ingovernabilidade e pulverização partidária – têm sido características de muitos sufrágios por esta nossa Eu­ropa fora. O que, neste caso, poderá surpreender é o facto de, desta feita, ser mais um Estado nórdico, durante muito tempo erigido em modelo e paradigma do Estado social, conhecido pelos altos níveis de bem-estar e de proteção conferido aos seus cidadãos, a mostrar-nos mais este exemplo de escolha eleitoral.

O que significa, inegavelmente, que não é apenas nos países em maiores dificuldades económicas e com menor nível de proteção social pública que o fenómeno se verifica e que deve ser seguido com atenção. Também nos próprios Estados ditos ricos, desenvolvidos, da Europa do norte, próspera e avançada, o fenómeno anti migratório e gerador do advento do extremismo radical populista de direita começa a estar enraizado na sociedade e a afirmar-se no terreno político-partidário.

A cada ato eleitoral que se vai sucedendo, o fenómeno tende a repetir-se a ponto de o podermos definir já, com alguma segurança, como uma verdadeira tendência destes atos eleitorais mais recentes que se têm verificado na Europa da União.

A questão mais relevante que, nos meses mais próximos, teremos pela frente, será justamente a de averiguar se esta tendência se confirmará, ou não, nas próximas eleições diretas para o Parlamento Europeu a decorrerem previsivelmente em maio do próximo ano. E se todas as características que enunciámos como presentes atualmente ao nível de vários sistemas político-partidários nacionais se transportarão, ou não, para o plano europeu.

Essa é a grande incógnita cuja resposta irá permanecer em aberto nos próximos tempos. Sendo que, da resposta que vier a ser dada a esta questão, irá depender muito do futuro imediato e da governabilidade da própria União.

Pese embora todas as dificuldades que tem atravessado e com que tem lidado, impõe-se reconhecer que, apesar de tudo, que a UE tem conhecido uma relevante estabilidade institucional. As suas instituições e os seus órgãos de governo têm sido constituídos dentro das regras e prazos tendencialmente previstos nos tratados, e têm funcionado com uma regularidade que muitos não creriam possível face à instabilidade política que lhe tem sido assinalada.

Estes tempos de acalmia institucional, todavia, poderão estar a aproximar-se perigosamente do seu fim, se os eleitorados europeus não arrepiarem caminho e continuarem a manter as opções que têm feito no plano dos respetivos Estados. Seria mais uma, e bem dispensável, crise com que a União teria de se defrontar. Não está dito nem escrito, infelizmente, que essa dispensabilidade signifique improbabilidade.

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