Nestes tempos de incerteza e turbulência, há muitos livros que oferecem algum tipo de orientação ou conforto espiritual. Há clássicos que têm resistido ao longo das décadas e cujo apelo não esmorece com a passagem do tempo.
Uma dessas obras é certamente “O Profeta”, do autor libanês Khalil Gibran, traduzido para mais de 100 línguas, escrita por um cidadão que era em simultâneo árabe e otomano, emigrado nos EUA, e que escrevia em árabe, francês e inglês.
Um cidadão do mundo que cresceu numa aldeia cristã maronita no Monte Líbano, neto de um padre, e que cedo revelou um enorme talento para a arte e a poesia. Na sua essência, “O Profeta”, publicado em 1923, é uma obra aparentemente simples.
Na ilha imaginária de Orphalese, um homem sábio decide regressar de navio à sua terra ancestral. À beira do mar, reunidos no porto para se despedirem de Al-Mustafá, pedem-lhe para partilhar palavras de sabedoria sobre o amor, a felicidade e a tristeza, o mal e o bem, o crime e o castigo ou a morte.
É uma obra que não apoia nenhuma religião em particular. Na verdade, a sabedoria presente no livro transcende nacionalidades e fronteiras, línguas ou sectarismo religioso. Esta revisitação da obra de Gibran vem a propósito de uma boa notícia, à boleia da celebração do Dia Nacional da Banda Desenhada Portuguesa, assinalado a 18 de outubro, e do início de mais um festival internacional de banda desenhada da Amadora, a 23 de outubro.
Refiro-me ao lançamento da adaptação para banda desenhada da obra “O Profeta”, de Gibran, pela libanesa Zeina Abirached (editora Levoir). Se há algum artista de banda desenhada especial mente vocacionado para esta adaptação é Zeina Abirached, que vai estar em Portugal a convite do Amadora BD.
Zeina compreende como ninguém a cultura de Gibran, as origens da sua singular espiritualidade, o amor pela pátria que nunca nos abandona – seja no exílio ou na emigração –, a defesa do secularismo e o desejo de transcender sectarismos, especialmente num país que foi vítima de uma enorme violência, como o Líbano.
Com uma sensibilidade notável, dá vida ao “Profeta” e deixa que a voz de Gibran preencha em pleno o seu traço a preto e branco. Se puderem visitar o festival de BD da Amadora, não percam a possibilidade de apreciar a exposição com as suas belíssimas pranchas sobre as grandes questões da vida. Nas palavras sábias de Al-Mustafá, “Ontem não é senão uma memória de hoje, e o amanhã é o sonho deste hoje que vivemos”.



