Empresa do grupo da Vic Properties em risco de ser investigada na Alemanha (com áudio)

O grupo centenário alemão de imobiliário, Adler Group, cujo maior acionista é também dono da Vic Properties que comprou ao Novo Banco a Matinha e a Herdade do Pinheirinho, está em risco de ser investigado pelo Bafin sob suspeita de manipulação das contas porque os short-sellers estão a apostar na queda das ações do grupo que tem mais de 8 mil milhões de dívidas, avançou a Bloomberg.

O grupo imobiliário Adler, um dos maiores proprietários de imóveis na Alemanha detido em 26,6% pela Aggregate Holdings (maior acionista), que  pertence ao investidor austríaco Guenther Walcher e é assessorada por Cevdet Caner, poderá estar a braços com suspeitas de fraude nas contas e tem sido alvo de short-selling, avança a Bloomberg. “A confiança dos investidores no Adler Group deteriorou-se”, escreveu o analista do BNP Paribas, Chris Kay, numa nota recente enviada aos clientes e citada pela agência de notícias.

A Aggregate Holdings é o maior acionista do Grupo Adler, mas é também dona de 100% da Vic Properties, que em Portugal comprou em maio de 2020,  ao Novo Banco a Herdade do Pinheirinho, situada em Melides, no concelho de Grândola.

Em 2019 a Vic Properties tinha comprado ao Novo Banco também os terrenos da Matinha por 140 milhões de euros. Neste caso a venda foi a pronto pagamento. Mas o banco financiou a Vic Properties na aquisição da Herdade do Pinheirinho em Melides, ainda que com um conservador loan-to-value de 33%, ou seja a relação entre o empréstimo e o valor de um ativo adquirido. O empréstimo, segundo apurou o Jornal Económico, está garantido por hipotecas que cobrem 300% do financiamento.

A Herdade do Pinheirinho foi comprada ao Novo Banco tendo o banco, a pedido do comprador, financiado em parte a aquisição da herdade que tem uma área de implantação de aproximadamente 200 hectares e acesso direto à praia, este projeto inclui hotéis, moradias, apartamentos, comércio e um Campo de Golfe.

Recorde-se que na sequência da Comissão Parlamentar de Inquérito o Novo Banco explicou por carta, depois das dúvidas levantadas pela deputada do PSD, Filipa Roseta, as vendas do projeto Matinha, “imóvel ainda não licenciado cujo valor de venda foi de 140 milhões de euros, ligeiramente acima da sua valor de avaliação e cujo valor por m2 de 545 euros aparece 21% acima dos valores para transações comparáveis” e a “herdade do Pinheirinho no litoral alentejano vendida por 60 milhões de euros e abaixo do valor de avaliação mas cujo valor de venda se situa 16% acima da média verificada para os comparáveis”.

A Vic Properties Portugal tem um total de total de activos de 1,55 mil milhões de euros, com um passivo de 902 milhões de euros, o que se traduz num net asset value de 648 milhões de euros).

O multimilionário empresário de real estate, Caner, é assessor da dona da Vic Properties, que é a maior acionista da empresa está no entanto a ser alvo de short-selling, justificado pela sua elevada dívida. O grupo Adler deve mais de 8 mil milhões de euros (9,3 mil milhões dólares). Mas os analistas avisam que o passivo pode ser maior do que parece.

Um dos investidores que apostou na queda das ações do grupo Adler, o analista Fraser Perring da Viceroy, publicou um longo research acusando a empresa de ser “construída sobre a desonestidade sistémica”. O Viceroy research de Perring acusa o Grupo Adler de conduzir uma série de transações em que a empresa vende ativos a partes relacionadas a um preço inflacionado que nunca é liquidado integralmente, empolando artificialmente o seu balanço.

Segundo a Bloomberg, o supervisor alemão, Bafin, terá já dito que estava a investigar as alegações invocadas no relatório da Viceroy, e que qualquer suspeita de crimes, levará a uma queixa à Procuradoria.

O assunto já está a ter contornos políticos, segundo a Bloomberg, que avança que os partidos querem saber exatamente como é que o grupo Adler fechou os seus negócios – e quem poderia beneficiar deles?

O portfólio da Adler está avaliado em 12,6 mil milhões de euros e possui ativos líquidos de 4,95 mil milhões de euros, de acordo com os resultados mais recentes da empresa. O valor em bolsa está nos 1,4 mil milhões.

Mesmo antes das acusações do research da Viceroy serem tornadas públicas, o custo de segurar a dívida da Adler contra o incumprimento (Credit Default Swaps) tinha disparado para níveis recordes, avança a Bloomberg.

A Gladstone Capital Management LLP e outros fundos de hedge divulgaram que estão a vender as ações da Adler. A Bloomberg noticia ainda que esta segunda-feira, um dos maiores acionistas da Adler vendeu quase toda a sua participação depois de a empresa ter sido alvo das vendas a descoberto. A Fairwater Multi-Strategy Investment vendeu uma participação de 5,5% na quarta-feira e agora possui menos de 0,1% da Adler.

As suspeitas estão a fazer cair as ações do Adler Real Estate, e segundo uma notícia da Bloomberg baseiam-se numa denúncia com revelações e pistas para a intriga que gira em torno da Adler e do seu acionista minoritário Cevdet Caner.

O Adler Group é o quarto maior grupo alemão de promoção imobiliária, existe há 141 anos, e há uma década pertencia a Cevdet Caner, um empresário austríaco de origem turca que fez sua carreira e fortuna no mercado imobiliário.

O empresário Cevdet Caner diz-se vítima dos short-sellers que querem fazer derrubar a empresa.

O Grupo Adler possui 70 mil imóveis em toda a Alemanha, incluindo 20 mil em Berlim, e segundo a Bloomberg também tem cerca de 600 milhões de euros de dívida a vencer nos próximos seis meses. Deve saldar essa dívida ou persuadir os bancos a refinanciar.

Com as ações a acelerar a trajectória de declínio nas últimas semanas, desencadeando algumas margin calls, o grupo Adler a 4 de outubro anunciou que está a estudar vendas potenciais de ativos como forma de reduzir a sua elevada alavancagem.

Na noite de quinta-feira, o maior investidor de Adler – a Aggregate Holdings, uma empresa informalmente assessorada por Caner – vendeu uma opção de compra de cerca de metade de sua participação à rival Vonovia SE. A Vonovia adquiriu uma opção de participação de 13,3% no Grupo Adler da Aggregate Holdings a um preço significativamente superior ao último preço de fecho das ações do Grupo Adler. A opção de compra tem um prazo de 18 meses. A transação serve para reembolsar um empréstimo relacionado com a sua participação estratégica no Grupo Adler.

A Aggregate Holdings é uma empresa de investimento imobiliário com  enfoque predominantemente na Alemanha, com interesses também em Portugal. Possui mais de  8,3 mil milhões de euros em ativos e um portfólio de projetos com valor bruto de desenvolvimento de 9,5  mil milhões.

Segundo a Bloomberg os bancos Barclays Plc, Deutsche Bank AG, Goldman Sachs Group Inc., JPMorgan Chase & Co., Morgan Stanley e UBS Group AG estão todos a analisar a Adler.

Notícia atualizada às 11h45 com a clarificação de que a Adler não está formalmente a ser investigada.

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