Acordo parcial entre EUA e China aliviou investidores, mas contexto global ainda gera incerteza

Os Estados Unidos e a China deverão assinar hoje o acordo de ‘fase 1’ numa cerimónia na Casa Branca. “É positivo para a economia mundial desde que acabe com a tendência de confronto”, disse François Savary, especialista em mercados financeiros, ao Jornal Económico. Mas salientou que o “contexto global que ainda gera incerteza no comércio mundial”. No horizonte, está a agora a possibilidade de um segundo acordo entre as duas maiores potências económicas mundiais.

O primeiro passo na aproximação das relações económicas entre os Estados Unidos e a China deverá dar-se hoje na Casa Branca quando, às 11h30 horas locais (16h30 em Portugal) começar a cerimónia da assinatura do acordo comercial de ‘fase 1’, quase dois anos depois do início da guerra comercial.

Anunciado e confirmado por Washington e Pequim a 13 de dezembro de 2019, este acordo parcial assinalou desde logo a aceitação da administração Trump de não escalar ainda mais as tensões comerciais entre as duas maiores potências económicas mundias porque ambas as partes  chegaram a acordo dois dias antes da nova entrada em vigor de novas tarifas impostas pelos norte-americanos às importações chinesas no valor de 156 mil milhões de dólares, previstas para o dia 15 de dezembro.

Os Estados Unidos aceitaram ainda reduzir para metade as tarifas introduzidas às importações chinesas em setembro do ano passado, no valor de 120 mil milhões de dólares, de 15% para 7,5%. As concessões norte-americanas esgotam-se aqui. Robert Lightizer, que liderou as negociações do lado norte-americano, excluiu outras reduções às tarifas impostas às importações de produtos chineses. Washington mantém assim as tarifas de 25%, no valor de 250 mil milhões de dólares, que foram introduzidas desde o início da guerra comercial, em março de 2018.

A China, por sua vez, comprometeu-se a comprar anualmente produtos norte-americanos no valor de 200 mil milhões de dólares, incluindo 40 mil milhões em produtos agrícolas. O acordo prevê o reforço da proteção da propriedade intelectual dos produtos e tecnologias norte-americanos, uma das maiores exigências do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Está também acordada a proibição da transferência forçada de tecnologia das empresas norte-americanas.

Liu-He, vice-primeiro-ministro chinês, não cedeu noutros pontos reclamados por Washington. A China recusou fazer concessões nos subsídios industriais e em utilizar as empresas estatais. A cibersegurança, particularmente o roubo cibernético (cybertheft), também ficou de fora do acordo parcial.

O acordo estipula ainda “um processo de controlo para verificar que está a ser cumprido e ainda a possibilidade de um segundo acordo no futuro”, explicou François Savary, especialista em mercados financeiros e chief investment officer da Prime Partners, uma sociedade suíça e gestora de patrimónios independentes com presença no mercado nacional.

Apesar de o acordo deixar elementos importantes de fora, o especialista em mercados financeiros considerou que “é positivo para a economia mundial desde que acabe com a tendência de confronto”. Os mercados acionistas, em particular os norte-americanos, reagiram positivamente ao anúncio do acordo de ‘fase 1’.

“Os desenvolvimentos do mercado em dezembro disseram que os mercados financeiros gostaram do acordo”, disse François Savary. “Constitui um alívio para os investidores no sentido que é a primeira prova que parou o caminho para o confronto. O comércio internacional é um elemento-chave para a economia mundial e torna mais credível o cenário de uma ligeira recuperação da atividade económica em 2020”, frisou o CIO da Prime Partners.

Tendo em conta a subida das bolsas após o anúncio do acordo, François Savary antevê uma “reação significativa depois da assinatura” e, a médio-prazo, frisou que “um ambiente mais favorável para o comércio internacional é positivo para os mercados acionistas”.

Apesar dos pontos positivos assinalados para a economia mundial, o CIO da Prime Partners tornou-se cauteloso em relação à administração Trump. “Não nos podemos esquecer que os Estados Unidos estão a entrar na fase de negociação com a União Europeia e a situação pode tornar-se tensa”, frisou François Savary. “Consideramos que o acordo entre os Estados Unidos e a China é um desenvolvimento positivo num contexto global que ainda gera incerteza no comércio mundial”, concluiu o especialista em mercados financeiros.

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