Advogado de Neymar ao JE: “Em vinte anos, contratos dos futebolistas passaram de três para 100 páginas”

Em entrevista exclusiva ao programa “Jogo Económico”, da plataforma multimédia JE TV, Marcos Motta fala sobre este conceito, da forma como a indústria do futebol tem evoluído nos últimos anos e como as transferências efetuadas na pandemia já mostram como poderá este negócio evoluir nos próximos tempos.

A 3 de agosto de 2017, Neymar transferia-se do FC Barcelona para o Paris Saint Germain por valores que ninguém julgava possíveis na indústria do futebol: 222 milhões de euros. O impacto desta mudança teve uma repercussão tão significativa que, quatro anos depois, este valor continua por bater.

Marcos Motta, advogado do jogador brasileiro e de algumas das maiores estrelas da indústria do entretenimento do Brasil , foi um dos protagonistas principais nessa operação que envolveu 36 horas de negociações ininterruptas.

Nas redes sociais, este advogado carioca fez um comentário que se tornou famoso. Quando um adepto se lamentava que uma transferência de 222 milhões de euros iria matar o futebol, Marcos Motta fez questão de responder ao fã: “Futebol é entretenimento, desporto é o seu jogo de domingo com os amigos”.

O advogado do jogador mais caro do mundo, que trabalha no futebol desde 1997, esteve em Lisboa na semana passada e trouxe o tema do ‘sportainment’ ao evento “Global Football Management”, que decorreu em Lisboa, um conceito que explica que o futebol já não é apenas um jogo e que está inserido num contexto mais global que envolve sociabilidade, networking, comunidade e lazer.

Em entrevista exclusiva ao programa “Jogo Económico”, da plataforma multimédia JE TV, Marcos Motta fala sobre este conceito, da forma como a indústria do futebol tem evoluído nos últimos anos e como as transferências efetuadas na pandemia já mostram como poderá este negócio evoluir nos próximos tempos.

Trouxe ao Global Football Management o conceito do ‘sportainment’, que entende que o futebol é mais do que um jogo e deve ser entendido de forma global. Quer explicar esse conceito?

A velocidade das transformações digitais, que foi de certa forma acelerada pela pandemia, é um tema bastante interessante e cuja discussão é tão necessária. O mundo do futebol e a área do entretenimento foram algumas das primeiras indústrias a serem impactadas pela pandemia. No entanto, acredito que o futebol e o entretenimento serão as primeiras áreas de atividade a recuperar no pós-pandemia em função da adesão e recetividade que estas indústrias têm relativamente às inovações e às normas formas de entretenimento.

Ou seja, é necessário ter uma visão mais ampla do negócio?

Hoje em dia, o futebol já não vive numa bolha uma vez que está inserido num contexto muito maior, numa visão muito mais holística da indústria, neste caso do entretenimento. Na minha opinião, é assim que o gestor moderno tem que tentar entender tudo o que gira em torno do nosso negócio. Creio que o futebol é hoje um pilar da indústria do entretenimento.

Quando se concretizou a transferência de Neymar, ficou conhecido um comentário do Marcos em resposta a um adepto que dizia que se estava a matar o futebol. Na altura, realçou que futebol era o que esse adepto jogava ao fim-de-semana, e que esta componente tem outra dimensão.

Essa é uma questão muito interessante. Quando falo de gestão dentro de um clube, falamos de uma mudança e adaptação de mentalidade, a todos os níveis: do presidente ao balneário, passando pelo departamento jurídico, todos têm que estar imbuídos dessa nova realidade da nossa indústria. Nunca nos podemos esquecer que, no final do dia, estaremos sempre a lidar com pessoas e paixão. E é em torno disso que temos de trabalhar, desenvolver, adaptar a nossa indústria e no final, é preciso recordar que o nosso consumidor final é o adepto. O adepto nunca deve ser esquecido, o espetáculo deve ser pensado para os fãs, devem ser o pilar central.

Já se passaram quatro anos mas a transferência de Neymar continua a ser um recorde mundial. O que reteve de todo esse processo?

Uma das primeiras negociações que efetuei no mundo do futebol foi a transferência do Leandro Machado para o Sporting CP. É por isso também que tenho um grande carinho por Portugal, porque ainda hoje recordo os contornos desse negócio que se concretizou no final dos anos 90. Na altura, tudo era muito mais simples do que aquilo em que hoje se transformou a transferência de um futebolista. No evento “Global Football Management” tive oportunidade de mostrar um contrato da transferência do Juninho Paulista (do Atlético de Madrid para o Flamengo) que tinha três páginas. Comparei com um contrato que foi efetuado agora em janeiro de 2021, com um clube da Premier League, e esse acordo tinha quase 100 páginas. Pode ver que, no espaço de 20 anos, a complexidade do nosso mercado alterou-se.

E sobre a transferência de Neymar?

A operação do Neymar foi complexa, de certa forma ‘divisora de águas’, mas costumo dizer que a operação mais difícil será sempre a próxima. Participámos em algumas transferências muito interessantes já em plena pandemia como a saída do David Alaba do Bayern de Munique para o Real Madrid, a ida do Thiago Silva do Paris Saint Germain para o Chelsea FC, do Alex Telles do FC Porto para o Manchester United. De certa forma, as transferências já efetuadas na pandemia, numa fase aguda da nossa indústria, necessitaram de algumas adaptações para antecipar aquilo que seria o mercado num ano ou em dois anos. A nossa indústria é sempre um desafio, no sentido de atender a todas as expectativas: de quem compra, de quem vende e do próprio jogador.

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