Afinal Trump é ou não é um isolacionista?

Trump abandonou alguns temas muito caros aos liberais, mas a sua administração está comprometida na competição geopolítica com os seus diretos competidores, e a sua grande estratégia permanece consistentemente hegemónica.

A discordância deve ser travada com contraposição argumentativa consistente e não com sound bites. Os argumentos assentes em buzz words concebidas por spin doctors tendem a ser exercícios apelativos, mas de fraca sustentação. Uma delas é acusar Trump de isolacionista. Ou seja, a administração Trump teria voltado os EUA para dentro e abandonado o projeto de liderança global abraçado desde o final de Segunda Guerra Mundial. Contudo, uma análise dos factos mais importante ocorridos desde que Trump tomou posse, sugere-nos algo consideravelmente diferente.

Na Europa e visando a Rússia, Trump manteve as sanções Moscovo, a NATO reforçou a sua estrutura de comando (criou um comando para o Atlântico e outro logístico), aumentou o número de exercícios no seu flanco leste, e a presença no Mar Negro, demonstrando que o compromisso militar dos EUA com os seus aliados europeus permanece forte. Para além disso, Trump não só não refutou o Rapid Action Plan aprovado na Cimeira de Gales como apoiou o acordado nas Cimeiras de Varsóvia e Bruxelas, particularmente a NATO Reassurance Initiative, mais conhecida pelos “quatro trintas”, aprovada na última. Ao que acresce o facto de a NATO incluir o espaço como um novo domínio de operações.

Ainda nesta região, mas bilateralmente, os EUA e a Polónia acordaram expandir a sua cooperação em defesa, passando os EUA a reforçar com 1,5 mil soldados o contingente americano, de 4,5 mil soldados, estacionado naquele país. Em 2017, Trump reforçou o orçamento das forças americanas na Europa de US$10 mil milhões, tendo em 2018 adicionado mais US$1,5 mil milhões, para, entre outros destinos, equipar uma divisão blindada. No Médio Oriente poderíamos referir apenas a obsessão de Trump com o Irão, e a sua pretensão de renegociar o acordo nuclear.

No Pacífico, a partir de meados de 2017, a Marinha dos EUA aumentou significativamente a atividade, com os seus navios a patrulharem partes do mar do Sul da China reivindicados por Pequim. Na Ásia, há a referir a intenção dos EUA implantarem mísseis de curto e médio alcance no Japão e na Coreia do Sul, o envio de bombardeiros estratégicos de longo alcance sobre a península coreana, o reforço do contingente militar no Afeganistão, e a tentativa de apaziguar as relações com a Coreia do Norte. Importa também referir a guerra comercial com a China.

A tudo isto poderíamos acrescentar o aumento do orçamento de defesa para US$735 mil milhões, mais do que o valor agregado do gasto em defesa dos dez países mais gastadores a seguir aos EUA; e a atribuição de somas elevadas para a construção de um sistema espacial de defesa antimíssil (e não só) e a sua colocação em órbita baixa. Ou ainda, a dificuldade em identificar traços isolacionistas nas Estratégias de Segurança e de Defesa Nacionais, dois documentos programáticos aprovados respetivamente em 2017 e 2018.

É certo que Trump abandonou alguns temas muito caros aos liberais, mas a sua administração está comprometida na competição geopolítica com os seus diretos competidores, e a sua grande estratégia permanece consistentemente hegemónica. Uma estratégia hegemónica não é isolacionista. Dizer que Trump é isolacionista só pode ser um ato de fé. Trump é um problema para o mundo, mas não pelos argumentos utilizados pelos seus opositores e detratores.

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