Agricultura de precisão contra mudança do clima

Mais de vinte produtores e profissionais do setor vitivinícola nacional explicaram quais os impactos que têm tido com as chamadas ‘alterações climáticas’ e o que estão a fazer para mitigar os seus efeitos.

É uma questão polémica, mas não há forma de a evitar ou de fingir que não existe. Pode-se chamar ‘alterações climáticas’ ou mudança nos comportamentos do clima, padronizados há séculos. Neste ‘Especial Vinhos 2019’, o Jornal Económico considerou oportuno ouvir a opinião sobre se existem mesmo alterações climáticas em curso no setor da vinha em Portugal e, em caso afirmativo, o que se tem estado a fazer ou o que está planeado para aplicar no terreno para contornar e minorar o seu impacto.

Ouvimos mais de uma vintena de especialistas do setor vitivinícola nacional, desde presidentes de CVR – Comissões Vitivinícolas de Regiões demarcadas – cinco ao todo, desde o Dão (incluindo as respostas de Arlindo Cunha na entrevista, em destaque nas páginas 4 e 6) ao Tejo, passando pela Bairrada, Lisboa e Península de Setúbal – assim como presidentes dos conselhos de administração de empresas privadas, CEO, administradores, sócios gerentes, gestores de planos de sustentabilidade, diretores de produção, gestores agrícolas, diretores de viticultura, enólogos, managing directors ou diretores de Investigação & Desenvolvimento.

Essa é a maior mais-valia deste fórum: a amplitude e diversidade de opiniões de quem está no terreno, com as mãos na massa, e não apenas a teorizar em folhas de excel num qualquer climatizado escritório citadino, por muito científico que seja o seu raciocínio. E opiniões provenientes de um variado leque de realidades, desde as referidas CVR, responsáveis pela defesa e promoção do património vitivinícola num determinado território do país, até aos grandes grupos privados do setor – Sogrape, Fundação Eugénio de Almeida, Casa Ermelinda Freitas, Casa Relvas, Herdade do Esporão, Reynolds Wine Growers, Real Companhia Velha, Fladgate Partnership, Aveleda, Herdade das Servas, Grupo Amorim ou José Maria da Fonseca – até às cooperativas e aos mais pequenos produtores e às empresas de cariz familiar. Cobrindo o território de forma homogénea, do Minho ao Algarve, passando pelos Açores, a mais recente coqueluche da produção de vinhos em Portugal. Com a única exceção da região da Madeira, por motivos alheios à nossa vontade.

E se há responsáveis que se sentem apreensivos em utilizar o termo ‘alterações climáticas’, a unanimidade sobre o facto de o país – e o restante Globo – ter registado nas últimas décadas fenómenos climáticos diferentes, mais extremos, como a seca, a queda de granizo ou trombas de águas, e com um padrão de ocorrências mais frequente é bastante sintomático de que não podemos ficar indiferentes ao que se está a passar, sob pena de perdermos uma das riquezas económicas e culturais com mais acumulado histórico e potencial futuro para o país.

Desde logo, o aumento da temperatura é um facto referenciado pela totalidade do painel de entrevistados pelo Jornal Económico para o ‘Especial Vinhos 2019’. O aumento da temperatura, mas também o aumento dos seus picos, os chamados ‘escaldões’. Temíveis, para as plantas e para os seres humanos. Também uma não diferenciação balizada das estações. E a falta crescente de precipitação, com períodos de chuva intensa e fora de época. Tendo como resultado a escassez do precioso bem que é a água e a erosão do solo. E implicando a perda de produção e a perda de qualidade, assim como a propagação de novas pragas e doenças nas vinhas.

E se a resposta à questão sobre se as ‘alterações climáticas’ estão a ter efeito na produção de vinho em Portugal é praticamente consensual, já a resposta à questão sobre o que se está a fazer para a contornar ou mitigar revela uma profunda preocupação dos produtores, que nem tudo é mau e que há males que vêm por bem. A pressão gerada pela inconstância climática está a fazer sobressair em Portugal um setor mais profissionalizado, com mais técnica, fomentando uma agricultura de precisão.

O calendário na vinha está a ser antecipado, em particular na fase das vindimas, crucial para o resultado final. Há vinhas em maior altitude, colocando mais problemas técnicos e de escassez de recursos humanos, levando à procura de soluções de colheita mecanizada, como é o caso do impressionante testemunho que nos deixa Charles Symington (páginas 8 e 9) sobre uma máquina para vindimar nos socalcos do Douro.

Ou a adoção de soluções para monitorizar o uso da água, desde a rega gota a gota, perfurações subterrâneas, reciclagem da água usada na adega ou construção de reservatórios ou barragens para reter este bem escasso. Outras técnicas a que os produtores estão a recorrer passam pela aposta no modo de produção biológico e nas castas autóctones, mais resistentes; redução de utilização de pesticidas; gestão de resíduos mais eficiente; fomento da biodiversidade funcional nas quintas; enrelvamento; técnica de enrola, utilização de castas híbridas, plantação de oliveiras em bordadura, despontas, e retardamento do início da poda. Ou práticas mais exóticas como o sombreamento artificial da vinha, a utilização de um ‘protetor solar’ para as parreiras com base numa argila branca (caulino) ou pulverização de aminoácidos assimiláveis de origem fúngica. Um admirável mundo novo que poderá descobrir nas próximas páginas, num setor que está obrigado a reinventar-se após vários séculos de existência.

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