Ajude-me Sr. Doutor, dói-me o digital

A interdependência entre diferentes tecnologias, bem como a utilização de chavões e conceitos diferentes para descrever a mesma coisa, dificultam o planeamento da transformação digital.

Com a democratização tecnológica cada vez mais presente na nossa rotina diária, é fácil assumir que a digitalização da nossa sociedade e da nossa economia é já uma realidade incontornável e imparável.

No entanto, vemos hoje um movimento potenciado por esta realidade ao qual gosto de chamar síndrome digital: a repetição incansável de sintomas que demonstram as alterações decorrentes da evolução tecnológica, para justificar que a sociedade e a economia se têm de transformar radical e absurdamente.

(Quem ainda não ouviu o argumento das empresas sem ativos – Uber, Alibaba, Airbnb e Facebook – repetido à exaustão?)

Longe de mim afirmar que não existe uma necessidade de evolução associada a estes movimentos. Acredito, plenamente, que empresas e sociedade enfrentarão transformações complexas que devem ser, no entanto, endereçadas com alguma capacidade de abstração do “ruído” e dos chavões, de forma a evitar a hipocondria digital.

De facto, há uma necessidade grande de prevenir a doença (preparar a digitalização), seja porque hoje esta tem mais estirpes (a abrangência de tecnologias a considerar é maior do que no passado), seja porque esta se propaga mais depressa (a velocidade do desenvolvimento e adoção da tecnologia aumentou significativamente).

No entanto, a digitalização padece de contextualização (diagnóstico), sobretudo no quadro empresarial. A doença afeta de forma distinta diferentes organismos (empresas) e é seletiva em relação aos órgãos (funções) que escolhe.

O estudo “The  case for digital reinvention”, demonstra que a penetração e o estágio de maturidade digital de diferentes setores e indústrias é efetivamente distinto, apesar de, em todos, existir a sensibilidade de que o impacto já não é residual.

O mesmo estudo demostra que, também no quadro das diferentes componentes da cadeia de valor, não só o impacto da digitalização é variável, como também gera diferentes resultados económicos e financeiros.

Mas não é só a doença que é complexa, a forma como a cura é comunicada complica a compreensão por parte do doente: a interdependência entre diferentes tecnologias, bem como a utilização de chavões e conceitos diferentes para descrever a mesma coisa, dificultam o planeamento da transformação digital.

Um estudo do MIT (“Achieving digital maturity”), identifica que as empresas mais maduras no quadro digital, não só integram a transformação digital no core do planeamento do seu negócio, como realizam esse planeamento a horizontes temporais mais abrangentes, identificando subsequentemente qual o mix mais equilibrado entre pequenos projetos/pilotos digitais e operações mais transformacionais na organização.

Estas organizações diagnosticam, de forma clara, quais são as suas doenças do foro digital e qual o tratamento mais adequado.

Assim, antes de se automedicar, garanta (i) que o diagnóstico digital é fidedigno e (ii) que a medicação é a mais adequada.

A digitalização é uma realidade e deve ser endereçada, no entanto, medicação em excesso ou desajustada só tenderá a agravar a doença, e ninguém quer que o doente morra da cura.

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