“Alexandria Ocasio-Cortez goes to Washington”

Nunca foi tão claro como agora qual o caminho a seguir. Resta escolher a ação e rejeitar o comodismo, a apatia e o populismo fácil que têm sido as maiores ameaças à democracia.

Muito tem sido escrito e dito sobre a ascensão do populismo em anos recentes com manchetes dramáticas a refletirem as divisões cada vez mais profundas que têm surgido na sociedade. No entanto, não temos dedicado linhas suficientes ao lado mais luminoso e inspirador da política que tem sido feita.

Frank Capra imortalizou a figura de Mr. Smith em “Mr. Smith Goes to Washington” como o político recém-eleito que combate um sistema político corrupto. Para muitos, o filme passou a pertencer ao reino da fantasia, tal a sua natureza idealista e otimista.

E, de facto, neste mundo globalizado em que alguns líderes apostam cada vez mais numa atitude incendiária, continuamos a observar a gradual degradação da atual presidência dos Estados Unidos, com o toque anti-Midas do Presidente Trump a destruir tudo aquilo em que toca. Perante este fenómeno extremo, foi possível testemunhar nas últimas eleições intercalares americanas o início de um movimento que trouxe esperança pelo futuro e inspira otimismo. A eleição de um leque de mulheres de diferentes origens e experiências enriqueceu o Congresso americano e mostrou que é possível desafiar candidatos apoiados pelo sistema e com elevados financiamentos.

Entre várias dessas eleitas, o caso mais mediático será certamente o de Alexandria Ocasio-Cortez, a jovem de 28 anos de origem porto-riquenha que alcançou o feito histórico de ser a mulher mais nova eleita para o Congresso. O seu percurso surpreendente inspirou dezenas de mulheres que se dedicaram à causa política num período particularmente desafiante da História americana.

Como membro da Democratic Socialists of America, Ocasio-Cortez irrompeu dos subúrbios de Nova Iorque à sombra do movimento “grassroots” iniciado por Bernie Sanders, com um percurso semelhante ao de muitos americanos, ameaçada por dívidas e pobreza. O seu carisma e talento natural para ativismo, bem como a sua capacidade de congregar pessoas em seu redor e em representar uma agenda radical que exige um sistema de saúde universal, o direito ao emprego e direitos iguais para mulheres e minorias, poderão ser o início de um movimento mais amplo para libertar a América da bota do capitalismo selvático.

Num país em que ainda vive uma geração que tem fortes preconceitos e medos associados à palavra “socialismo”, contrapõe-se uma nova geração de americanos para quem o socialismo é a resposta para lutar por um sistema político livre de interesses corporativos e por um sistema económico regulado por valores democráticos.

São pessoas como Cortez que nos mostram como chegaram ao fim as velhas e bolorentas formas de fazer política, e que podemos adotar uma mensagem global progressista que recupera o legado de Franklin D. Roosevelt e honra o seu “New Deal”, adaptando-o aos desafios  económicos, sociais e ecológicos do século XXI. Nasce assim um Novo Contrato Verde.

A estrada está aberta para progressistas de todo o mundo. Nunca foi tão claro como agora qual o caminho a seguir. Resta escolher a ação e rejeitar o comodismo, a apatia e o populismo fácil que têm sido as maiores ameaças à democracia. Por vezes, é preciso chegar ao fundo do abismo para que se possa iniciar o caminho da ascensão.

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