Alice Vieira: Do tricô aos livros, a vida dela dava um romance

Interrompemos as compras de postais de Alice Vieira, no edifício principal da Gulbenkian, para um passeio no jardim da fundação e uma viagem pela vida da autora. Com 73 anos e mais de 80 livros publicados, confessa que “não consegue ler nada”. A escritora e antiga jornalista aborda a velhice, a solidão e a morte dos homens da sua vida – “os Mários”. Revela-se preocupada com estado do jornalismo e denuncia uma falta de memória coletiva “espantosa”.

Os postais que Alice traz consigo são para enviar a desconhecidos. Além de escrever livros infantis, romances em conjunto com outros escritores, crónicas no Jornal de Mafra e de colaborar com a revista Audácia, a autora conversa com estranhos através de carta-postal, o post crossing, numa cadeia de mensagens que só termina quando se quiser. “Estavam a pedir-me postais de música, portanto vim cá”, explica Alice, para quem a Fundação Calouste Gulbenkian não é estranha. É rara a semana em que perde os concertos que ali se fazem à sexta-feira.

O percurso até ao anfiteatro exterior, junto do lago, é marcado por um ágil desvio às aves que se vão atravessando pelo caminho. “Sou… não me lembro bem do nome agora, mas tenho fobia a penas, sabe? Portanto, tudo o que é aves, para mim, tem de estar afastado”, revela a benfiquista ferrenha que nem com a águia Vitória consegue estar.

O espaço é composto por blocos de cimento que contrastam com a verdejante vegetação. A acessibilidade, ou a falta dela, é mencionada por Alice, que recorre à velhice umas quantas vezes, na conversa com o Jornal Económico. “Esse degrau não, que sou velhinha”, e contornamos o obstáculo para, depois do lago, chegarmos à mesa, onde a autora bebe um dos muitos cafés que preenchem o seu dia.

Alice Vieira percorre as escolas do país a promover a literatura entre os mais jovens, uma atividade que, reconhece, lhe custa bastante: “Sinto-me sempre cansada, trabalho muito. Deito-me tarde e levanto-me cedo; ando sempre na rua. Vou a muitas escolas e isso é que me cansa mais. Vou para longe, ir e voltar, isso cansa-me muito com a viagem, o comboio, o carro…”.

O ano de 2017 prolonga o anterior, um ano “muito complicado em questões de saúde e de pessoas”: “Parti vértebras, morreu-me montes de gente”. O nome Mário é incontornável na vida de Alice Vieira, que torna presentes os dois homens ausentes da sua vida, com uma naturalidade só explicada pela “paixão e alegria”. “Um morreu há 14 anos, outro há cinco meses”. Os dois entrelaçam-se na vida de Vieira: primeiro Mário Pinto, depois Mário Castrim.

“Costumava dizer que só um jornalista consegue casar-se com outro jornalista; foi o que aconteceu na primeira vez, com Mário Castrim. Na segunda também resultou muito bem, mas tratou-se de um caso que estava por fechar e que se fechou – foi o meu primeiro namorado, Mário Pinto. Eu estava para me casar com ele. Tinha 18 anos e apareceu-me o outro Mário, nas escadarias do Diário de Lisboa. Olhei para o cimo das escadas e pensei ‘esta é a vida que eu quero e aquele é o homem que eu quero’. Acabou-se. Não houve mais nada para fazer”.

Alice viveu com Mário Castrim durante “40 e tal anos, até morrer”. Dois anos depois, “apareceu o primeiro Mário”: “Foi o fechar de uma história que tinha começado na minha juventude”. A autora, natural de Torres Novas, viveu 11 anos com Mário Pinto. Quando este ainda era vivo, Alice fez “um jantar com amigos do peito”. “Convidei o Mário Zambujal, e ele quis fazer um discurso, onde disse: ‘ó Mário, eu só não te a roubo porque, porra, três Mários era demais”, conta Alice Vieira, entre as gargalhadas que pautaram a conversa.

A estratégia para a superação da perda é “ter muito trabalho para manter a cabeça ocupada”. “Sou muito amigo-dependente, preciso de ter muitos amigos. O apoio que elas [as amigas] me deram foi importante”.

A morte de Mário Castrim foi um processo longo. “Já este não demorou tanto e iam sempre dizendo que ficava bem, mas não ficou”. Será possível mentalizarmo-nos da morte de um parceiro? “É possível, mas não ajuda. É sempre difícil e complicado, mas há que não ceder aos desgostos e à dor”, diz.

A autora de “Rosa, minha Irmã Rosa” ou “Chocolate à Chuva”, dois títulos imortais e que ‘ensinaram’ a ler gerações e gerações, regressa ao presente e conclui: “Penso que o que é bom – a saudade fica sempre – é lembrar-me deles e pensar o quão bom foi tê-los comigo; tive essa sorte. Foram duas grandes paixões. Guardo uma grande alegria que ambos tinham até à morte. Até ao fim. A grande liberdade que sempre tivemos. A grande disponibilidade para aceitar o meu trabalho e a minha vida”.

“Estou bem sozinha, mas de vez em quando preciso de falar com alguém. Estou com uma psicóloga – uma coisa que nunca pensei fazer na vida”, confessa.

O que também não estava previsto na vida de Alice Vieira era a literatura; e ainda hoje a consagrada autora se engana a si própria: “Digo sempre que depois deste [o livro mais recente] nunca mais escrevo”. “A minha vida não era isto. Nunca na minha vida pensei ser escritora. Quando publiquei o meu primeiro livro já tinha muitos anos de jornalismo em cima.” Desde cedo que Alice queria deixar a literatura. “Tenho trabalho que chegue no jornal, isto não é a minha vida” – é o argumento que nunca teve força suficiente para fazer com que a então jornalista abandonasse a escrita literária.

Contudo, o jornalismo é aquela área de atividade cujos profissionais – aqueles que realmente o são – nunca deixam de o ser. A carteira profissional de Alice Vieira já foi entregue, mas o espírito preserva-se e continuará enquanto for viva. Essa realidade faz com que a autora, que compra jornais sobretudo para “fazer as palavras cruzadas”, olhe para o jornalismo num “tempo muito incerto, com uma profissão muito incerta”.

Analisando os principais sintomas, o diagnóstico de Alice é perentório: “Há uma ausência de mestres no jornalismo. Aprendíamos com esses”. “Lembro-me bem do Manuel de Azevedo, que nos dizia sempre: ‘um jornal que se preze não circula com palavras fora de circulação’. Tínhamos de estar muito atentos, de conhecer os leitores. Acho também que se escreve mal e que se lê pouco”.

“As pessoas têm muitos cursos de comunicação social, mas, se calhar, era preciso outro tipo de curso”, diz, apontando, ainda: “Há uma falta de memória… é uma coisa espantosa. A velocidade com que as coisas se esquecem das coisas – e viu-se isso no enterro de Mário Soares – é extraordinária. Como é que as pessoas não sabem?”, interroga-se Alice, que sabe melhor a resposta do que aquilo que à primeira vista possa parecer: “A nossa história recente e atual não é dada nas escolas”.

“A esmagadora maioria dos presentes no enterro de Soares diziam que começaram a perceber de política em casa, com os pais. Os filhos dessas pessoas, que não passaram por isso, não sabem. O facto de não terem passado faz com que ninguém fale sobre isso. E se as pessoas não falam em casa, como é que eles sabem?”, diz, voltando a deixar a pergunta pairar. “Nas escolas não se fala disso. Se não é ensinado e se em casa não é referido, as pessoas não têm como saber – não nascem ensinadas. Mas o facto de não passarem por essas realidades e, por isso, não saberem… eu também não passei pelo Afonso Henriques… A nossa história recente devia, urgentemente, fazer parte do currículo escolar”, defende.

A conversa é interrompida por uma saudação de alguém que Alice Vieira posteriormente confessa não se lembrar. “Fui a sua casa buscar livros, Alice. Estes são os meus colegas da associação dos Açores”. “Eu lembro-me”, retorque a autora, com satisfação. Alice lembra-se de terem ido lá a casa, mas não se recorda do nome e explica a razão: “Olhe, não sei quem era, vai lá tanta gente”.
Alice Vieira cede os livros que tem em casa e “não os quer de volta” – “em minha casa é só livros e presépios”. Os últimos fazem parte da coleção da autora, os primeiros são-lhe oferecidos pelas mais diversas entidades e sobre os mais variados temas, como canalização ou reparação de monumentos.

A residência da autora está repleta de obras. Contudo, não têm tido muito uso: “Há muito tempo que não consigo ler nada. Não tenho concentração; leio uma página e não me lembro”. O truque é, então, “não ler nada de novo”, um conselho da psicóloga que resultou em cheio: “Já reli o Eça quase todo, assim como o Machado Assis”. Ainda assim, este é um problema que não se alastra à escrita. E ainda bem, sublinha Alice, “que não pode estar à espera de ter a cabeça boa”.

No meio de todas as adversidades, como é que aos 73 anos se conseguem criar novas histórias? “Sou jornalista, a realidade dá-me sempre histórias. Vou à rua buscar novas histórias”, remata. Porém, não se esgota aí o método da escritora. “Ou então pego na malha e faço tricô, que é ótimo. Ocorrem-me frases, ideias para personagens”. As amigas da autora encomendam-lhes peças de roupa e acessórios, mas têm de esperar; muitas ficam temporariamente incompletas, à espera de que Alice volte a pegar nas agulhas à procura de inspiração.

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