Alimentação. Aprender a comer na era digital

A tecnologia, a automação, a inteligência artificial, a digitalização, a internet das coisas e a realidade aumentada estão a mudar as nossas vidas e vão intensificar o ritmo de interferência nas nossas existências nos próximos anos.

E vão implicar a mudança radical de hábitos tidos por garantidos até há pouco tempo em coisas tão básicas da nossa experiência de seres humanos como a alimentação.

As novas tendências e negócios do setor agroalimentar são um tema apaixonante e mereceram a atenção de um estudo do projeto AgriEmpreende, promovido em conjunto pelo AgroCluster do Ribatejo e pelo InovCluster, financiado por fundos comunitários através do Compete 2020 (Portugal 2020). O estudo, a que o Jornal Económico teve acesso, elenca um conjunto de casos de estudo internacionais e traça a sua possível adaptação às regiões portuguesas do Ribatejo e da Região Centro. Hambúrgueres que são feitos de vegetais mas que parecem e sabem a carne, leite com validade alargada, snacks de grão de bico ou de sorgo, dietéticos em sopa, caldos liofilizados, pão sem miolo recheado de vegetais ou frutas, bebidas de carvão ativado, gelados com alcóol, doces de fruta ou mel com canábis, declinações de chá, azeites de luxo, bebidas para adormecer ou chá em varetas são alguns exemplos do admirável mundo de que nos alimentaremos num futuro cada vez mais próximo.

O gigantesco combate ao desperdício alimentar

Além da inovação ao nível da produção e da combinação de produtos, aromas, sabores e texturas, as novas tendências da alimentação para este século XXI digital passam muito pela redução do desperdício alimentar. “De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 2017), a definição de desperdício alimentar está associada à perda de alimentos destinados ao consumo humano, em qualquer ponto da cadeia de fornecimento alimentar”, destaca o referido estudo.

O documento acrescenta que o desperdício alimentar é composto por alimentos que são descartados ou perdidos e não são, portanto, consumidos. E pode ocorrer em diversos momentos, desde a produção, ao processamento, venda e consumo. “Atualmente, a nível global, estima-se que o desperdício alimentar amonte entre um terço e metade de toda a comida produzida. Além disso, este desperdício alimentar conduz a outros gastos desnecessários, tais como: mão de obra, água, energia, terra, entre outros”, alerta o estudo do projeto AgriEmpreende.

“Este fenómeno constitui um problema: para além de todas as implicações económicas e éticas que o rodeiam, é também um grande contribuidor para a emissão de gases com efeito de estufa como o metano, emitido pelos produtos alimentares que quando não são consumidos são deitados ao lixo – lixo orgânico. Estes gases são os principais potenciadores do aquecimento global, um dos maiores desafios que o planeta enfrenta atualmente. Na União Europeia, segundo o estudo da Fusions sobre as estimativas dos níveis de desperdício de alimentos na Europa (Fusions, 2016), conclui-se que, anualmente, são desperdiçadas cerca de 88 milhões de toneladas de comida, com custos associados de 150 milhões de euros”, adianta o estudo em questão.

Cada português desperdiça 132 quilos de comida por ano

E em Portugal o que se passa neste domínio? O AgriEmpreende calcula que no nosso país “o desperdício alimentar anual é de cerca de um milhão de toneladas de alimentos, o que aponta para que cada pessoa desperdice, em sua casa, cerca de 132 quilos de comida por ano, a acrescentar aos 17% de comida que é deitada fora ainda antes de chegar aos consumidores”.

Números impressionantes que é necessário inverter. De acordo com este estudo, “para reduzir este desperdício e, consequentemente, atingir as Metas de Desenvolvimento Sustentável da ONU, é indispensável o apoio à luta contra as mudanças climáticas, ajudando a implementar ações que permitam economizar comida nutritiva para ser redistribuída pelos que necessitam, ajudando simultaneamente na erradicação da fome e ainda na poupança de dinheiro aos produtores, empresas e consumidores”.

Foi com estes fatores em mente que surgiu a sharing economy (economia de partilha), “a economia em que os bens e os serviços são obtidos de forma partilhada, através de aplicações ou sistemas de empréstimos e partilha entre consumidores. Para resolver o gigantesco problema do desperdício alimentar há que mudar de paradigma ao que fazemos em nossas casas quanto à comida que sobra a cada refeição”. “Independentemente do local onde ocorra, cada desperdício representa uma oportunidade perdida de alimentar seres humanos, ainda que seja gerado em lugares diferentes por razões diferentes. Geralmente, os países industrializados desperdiçam mais alimentos nas fases de retalho e consumo da cadeia alimentar do que os países menos desenvolvidos. Nos países em vias de desenvolvimento, que muitas vezes não possuem infraestruturas para distribuir todos os seus géneros alimentares em boas condições, as perdas ocorrem, na sua maioria, durante as fases de produção, pós-safra e transformação”, explica o referido estudo.

A análise do AgriEmpreende acusa-nos a nós todos, consumidores, de sermos cúmplices desta situação trágica: “compram produtos a mais porque há alimentos atraentemente embalados e baratos ao virar de quase todas as esquinas; guardam os alimentos de maneira desadequada; interpretam à letra as datas de validade, embora as etiquetas tenham sido concebidas para indicar a data de máxima frescura e não a segurança alimentar; esquecem-se de comer os restos da refeição; esquecem-se dos sacos com restos nos restaurantes e são pouco penalizados (ou não o são de todo) por deitar para o caixote do lixo alimentos comestíveis”.

Para mudar este paradigma, aproveitando o poder da tecnologia móvel na era da sharing economy, surgiu em 2016, no Reino Unido, uma app, a Olio, que assumiu o objetivo de viralizar a necessidade urgente de diminuir a quantidade de comida desperdiçada mundialmente e consciencializar a sociedade global da urgência de resolução deste problema. “Com esta app, através da tecnologia, qualquer pessoa ou organização luta contra o desperdício alimentar, uma vez que é possível doar ou vender excedentes alimentares ou de refeições comestíveis aos seus vizinhos, promovendo a partilha e evitando assim que sejam descartados. Isto inclui comida próxima da data de validade, vegetais caseiros sobrantes, pão das padarias ou produtos que precisam de ser retirados dos frigoríficos”, exemplifica o estudo.

Inicialmente, a cidade de Londres foi o mercado teste da Olio. No presente, esta app  já possui utilizadores em 41 países, estando disponível para IoS e Android, sendo considerada a maior rede de partilha de comida a nível mundial. “Portanto, para disponibilizar alimentos, os usuários abrem o aplicativo, adicionam o item com uma foto, descrição, preço (se aplicável) e quando está disponível para retirada. O aplicativo, em seguida, fornece o local atual em que pode ser recolhido, sendo, no entanto, possível esta cancelar essa ação no caso dos utilizadores preferirem fazer a troca num local público. Já para encontrar produtos, basta navegar pelas listas dos itens disponíveis, solicitar o que se quer e combinar a recolha por meio de mensagens privadas”, esclarece o estudo da AgriEmpreende.

O objetivo deste projeto é replicar essa ideia em Portugal, para aproveitamento da ‘comida que sobra’ através da sua identificação e exposição (partilha) num canal online disponível para todos (app), em alternativa à sua perda ou destruição. “A ‘comida que sobra’ é doada ou vendida por restaurantes, indústrias alimentares, universidades, particulares/famílias, empresas ou instituições que organizam eventos, à comunidade potencialmente interessada (constituída por particulares, famílias carenciadas, instituições sociais, entre outros)”, exemplifica o estudo em causa. Na prática, esta app funcionaria num conceito de negócio próximo de um ‘OLX de comida que sobra’, gerando um novo mercado que evita o desperdício, rentabilizando algo que seria para deitar ao lixo, quer em termos monetários (venda a outrem), quer em termos de facilitação da ajuda aos mais carecidos (doação).

“O promotor pode direcionar a utilização inicial desta app aos restaurantes de uma determinada área urbana em território nacional, sendo que os interessados poderão colocar a ‘comida que sobra’ à disposição da comunidade local – nomeadamente famílias, instituições sociais e outras. Por sua vez, os particulares, empresas alimentares e universidades da região poderão ser parceiros, também, e estar interessados em partilhar (doar ou vender) a ‘comida que sobra’ a outras famílias e/ou instituições sociais. O utilizador que coloca comida à disposição da app, poderá fazê-lo mediante o pagamento de um fee ou cedendo uma percentagem da venda realizada ao criador e promotor do negócio”, avançam os responsáveis do AgriEmpreende. Para se calcular o potencial de inovação desta ideia para o setor agroalimentar, basta dizer que os restaurantes portugueses desperdiçam pelo menos 50 mil refeições todos os dias, um problema em que a utilização de uma app como a Olio seria uma mais-valia para a sua resolução.

Das colheres de pão ao frigorífico inteligente

Mas nem só da luta contra o desperdício alimentar se ocupa este estudo da AgriEmpreende. No pão, há diversas inovações que podem ser replicadas no Ribatejo e no Alentejo. Trata-se de recriar um produto básico, acrescentando valor, desde a produção de colheres de pão, de diversos sabores, para comer saladas, iogurtes ou sobremesas, em que as próprias colheres também são comidas. Ou pão ‘sem miolo’ recheado de legumes ou outros produtos, como ovo cozido. Ou  patés de frutas tropicais, com misturas de várias frutas nacionais (figos, ameixas, melão, tomate), sem açúcar sintético, em que o processamento da polpa da fruta tropical é feito no próprio local da colheita (por exemplo, banana na América Central), e em que poderá dar lugar ao desenvolvimento de uma linha de embalamento destes produtos em Portugal. Com a possibilidade de adaptação a produtos biológicos para bébés, idosos ou pessoas com necessidades especiais de alimentação.

E a diversidade de produtos alimentares que nos prometem modificar o quotidiano dentro de pouco tempo não param e estendem-se a toda a nossa experiência em torno dos alimentos, desde a compra no supermercado, à confeção na cozinha ou à forma de distribuição dos produtos. Todos eles são também nichos de mercado potenciais para empreendedores e potenciais empresários nacionais. Estamos a falar de frotas de carros aupilotados para distribuir os alimentos pelas casas, restaurantes ou instituições. Ou dos frigoríficos do futuro, que têm um ecrã tátil especialmente projetado para nos informar acerca dos produtos que estão no interior, o que está em falta e os que estão perto da data de validade. Que têm uma câmara interior direcionável a cujas imagens poderá ter acesso quando está num supermercado para saber o que precisa para o jantar e que tornará obsoletas as tradicionais listas de compras. E que lhe pode sugerir a receita adequada para essa refeição em função do conteúdo no interior do frigorífico…

São estes alguns dos ingredientes com que  teremos de lidar para aprender a comer na era digital.

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