Alterações climáticas poderão provocar crise financeira mais grave do que a de 2008

O Banco de Compensações Internacionais (BIS) alertou para a necessidade de os bancos centrais “mais proactivos” em preconizar esforços maiores para mitigar as consequências do aquecimento global e das alterações climáticas. “As catástrofes climáticas são mais sérias do que a maioria das crises financeiras sistémicas: podem ameaçar a  humanidade”, frisou a instituição no livro “Cisne Verde: Bancos Centrais e Estabilidade Financeira na Era das Alterações Climáticas”, do Banco de Compensações Internacionais”, que foi hoje publicado.

As alterações climáticas estão a entrar cada vez mais na forma de operar dos agentes de mercado da economia global. Um pouco por todo o mundo, empresas de diversos setores anunciam alterações aos modelos de negócio tendo em conta preocupações de sustentabilidade.

Na semana passada, a Blackrock, a maior gestora de ativos a nível mundial, anunciou que iria colocar a sustentabilidade no centro das decisões de investimento. A Microsoft revelou recentemente que pretende alcançar a neutralidade carbónica em 2030 e a Repsol disse que vai tornar-se numa empresa de ‘emissões zero’ em 2050.

Ainda que as preocupações ambientais tenham entrado na agenda dos ‘boards’ das grandes empresas, a verdade é que “as emissões de CO2 continuaram a aumentar desde o Acordo de Paris e nada indica que esta tendência esteja a inverter”, assinalou o livro “Cisne Verde: Bancos Centrais e Estabilidade Financeira na Era das Alterações Climáticas”, do Banco de Compensações Internacionais (na sigla inglesa, BIS) e que foi esta segunda-feira publicado (o título original em inglês: The Green Swan: central banking and financial stability in the age of climate change).

O BIS, citando diversos estudos académicos, indicou que as temperaturas do planeta vão aquecer entre 4.1ºC e 4.8ºC em 2100, no cenário ‘business as usual’ – isto é, se os Estados signatários do Acordo de Paris não tomarem medidas para limitar o aquecimento do planeta abaixo de 2ºC

As consequências serão “catastróficas” e “irreversíveis” para o Homem. Por exemplo, o degelo dos glaciares, causado pelo aumento da temperatura da Terra, poderá aumentar o nível do mar em dois metros, o que “poderá desalojar 200 milhões de pessoas em 2100”. “Ainda mais alarmante, períodos passados na história da Terra indicam que a subida da temperatura entre 1.5ºC e 2ªC podem causar o degelo na Gronelândia e na Antártica e provocar o aumento do nível do mar em mais de seis metros”, lê-se no livro.

“A alterações climáticas não são apenas um risco do futuro: já começaram a transformar a vida na Terra, embora os piores impactos ainda estão para vir”, salientou o BIS. “Evitar os piores impactos das alterações climáticas implica um massivo desafio para humanidade. O planeta emite cerca de 40 gigatoneladas de CO2 por ano e está a caminho de duplicar até 2050, altura em que deveríamos reduzi-las para quase zero, de forma a respeitar o Acordo de Paris”, reforçou a instituição.

O impacto das alterações climáticas no mundo financeiro

O livro do BIS, com 107 páginas, explicou que as consequências das alterações climáticas são incertas. Mas deixou uma certeza: “as catástrofes climáticas são mais sérias do que a maioria das crises financeiras sistémicas porque podem representar uma ameaça existencial para a humanidade”.

As alterações climáticas vão provocar essencialmente dois riscos financeiros. Por um lado, existem os “riscos físicos”, que representam “custos económicos e perdas financeiras devido à cada vez maior frequência e severidade” de catástrofes naturais. Por outro lado, há os “riscos de transição”, que são “associados com impactos financeiros incertos que poderão resultar de uma rápida transição energética para menores emissões de CO2, impactos reputacionais, avanços tecnológicos ou limitações, e alterar as preferências dos mercados e das normas sociais”, disse o BIS.

Uma rápida transição energética iria originar os chamados “ativos encalhados” (do inglês, stranded assets). O livro citou um estudo que concluiu que “para haver 50% de hipóteses em manter o aquecimento global abaixo dos 2ºC, dever-se-iam deixar inutilizadas cerca de 80% das reservas de carvão, metade das reservas de gás e um terço das reservas de petróleo entre 2010 e 2050”.

Não utilizar estes ativos teriam impactos financeiros, embora diversos estudos apontem para níveis de custos diferentes. Houve conclusões que apontaram que “os ativos fósseis encalhados poderiam custar entre um bilião e quatro biliões e dólares à economia mundial” enquanto a Agência de Energias Renováveis estimou esse custo em 18 biliões de dólares.

Por seu turno, estes dois tipos de risco – os riscos físicos e os riscos de transição – iriam provocar outros de riscos de naturezas distintas. Por exemplo, os “riscos de crédito”, são riscos causados pelas alterações climáticas que provocam a deterioração de o devedor liquidar as dívidas, aumentando as probabilidades de incumprimento. Ou “riscos de mercado”, causados pela alteração da perceção dos investidores sobre a possibilidade de lucros no caso de elevados ‘ativos encalhados’. Ou “riscos com os seguros”, que poderão afetar as seguradoras à medida que os contratos de seguro são acionados pelos clientes.

As alterações climáticas e o novo papel dos bancos centrais

Os bancos centrais não poderão ser entidades estranhas às consequências do aquecimento global e das alterações climáticas. “As catástrofes climáticas são mais sérias do que a maioria das crises financeiras sistémicas: podem ameaçar a  humanidade”, frisou o livro do BIS.

A instituição salientou que os bancos centrais poderão intervir enquanto “socorristas climáticos de último recurso” ou enquanto “uma espécie de seguradora coletiva para os danos causados pelas alterações climáticas”. “Enquanto os bancos em dificuldades financeiras durante períodos de crise podem ser resolvidos, isto [as alterações climáticas] será muito mais difícil no caso de as economias se tornarem inviáveis por causa das alterações climáticas”, alertou o livro do BIS.

O BIS realçou que os bancos centrais não se podem substituir aos decisores políticos e outras instituições, mas defendeu que se podem tornar “mais proactivos” em preconizar “alterações maiores e mais coordenadas de forma a continuarem a poder executar os mandatos de estabilidade financeira e estabilidade do preço no longo-prazo maior do que o normalmente considerado”.

A nível prudencial, o BIS sugeriu que os bancos centrais “integrem cenários climáticos nos testes de stress” regularmente realizados aos bancos. Assim, da mesma forma que atualmente se fazem os testes de stress para apurar a resiliência financeira em face de um choque, passar-se-ia também a realizar “testes de stress climáticos”. Na teoria, se estes testes de stress climáticos concluíssem que os riscos de climáticos existem, “poderiam ser aplicados requisitos de capital aos bancos para mitigar a exposição a esses riscos”, explicou o BIS.

Além disso, o BIS sugeriu ainda que os bancos centrais comecem a verificar que os “os riscos climáticos estão bem incorporados nas estratégias e na gestão de risco instituições financeiras”.

As “instituições financeiras deveriam perceber melhor os riscos climáticos e considerá-los na sua gestão de risco e nas decisões de investimento, e também nas estratégias de longo-prazo”, reforçou o BIS.

O BIS explicou que estão em curso discussões que conjuguem os riscos climáticos com os requisitos de capital impostos aos bancos pelos acordos de Basileia III.

Por exemplo, ainda que sejam necessários mais estudos, o BIS disse que “as discussões estão a ir no sentido de penalizar a exposição a ‘ativos castanhos’ [do inglês, brown assets, que têm origem nos combustíveis fósseis]”.

No que diz respeito aos mecanismos de supervisão da gestão de risco das instituições financeiras, o BIS defendeu que os reguladores – isto é, os bancos centrais – podem “prescrever requisitos de capital adicional se uma instituição financeira não supervisionar e gerir os riscos climáticos de forma adequada”. Por exemplo, o “banco central do Brasil obriga os bancos a incorporar os riscos climáticos no seu modelo de governo”.

Outro exemplo, ao nível da divulgação de informação, o BIS sugeriu que os bancos centrais “podem requerer um informação mais sistematizada sobre os riscos climáticos”, citando como exemplo a lei da transição energética francesa que impõe as instituições financeiras e as empresas a indicarem a que riscos climáticas estão expostas e como pretendem geri-los.

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