“Alterações climáticas vão forçar uma realocação significativa do capital”, diz CEO da BlackRock

Na carta anual aos CEO, à qual o JE teve acesso em primeira mão, Larry Fink, presidente da maior gestora de ativos do mundo, sublinha que “estamos prestes a ver uma reformulação fundamental” do sistema financeiro a nível global. A causa? O aumento da percepção sobre os riscos económicos que as alterações climáticas apresentam.

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Os mercados têm sido lentos a refletir o risco que o impacto das alterações climáticas vai representar para o crescimento económico e para a prosperidade, mas a consciência sobre o assunto está a aumentar e vai obrigar a uma realocação do capital mais rápida do que muitos antecipam, afirmou esta terça-feira, Larry Fink, CEO da BlackRock.

Na carta anual que envia aos CEO dos clientes, o presidente da maior gestora de ativos do mundo (que em agosto do ano passado tinha 6,84 biliões de dólares em ativos sob gestão), começou por recordar que as alterações climáticas tornaram-se no fator que define as perspetivas das empresas a longo prazo.

“No passado mês de setembro, quando milhões de pessoas saíram às ruas para exigir ação sobre alterações climáticas, muitas delas sublinharam o significativo e duradouro impacto que essas alterções vão ter no crescimento económico e na prosperidade, um risco que os mercados até agora têm sido mais lentos a refletir”, referiu.

Fink salientou que “no entanto, a consciência esta a mudar rapidamente, e eu acredito que estamos na fronteira de uma reformulação fundamental do sistema financeiro”.

Segundo o gestor, as provas sobre o risco climático estão a convencer os investidores a reavaliar os pressupostos e que a investigação conduzida por várias organizações – como o painel intergovernamental das Nações Unidas sobre o assunto e o BlackRock Investment Institute – está a aprofundar o conhecimento sobre como o risco climático irá impactar não só o mundo físico, mas também o sistema global que financia o crescimento económico.

Fink questiona, por exemplo, se as cidades irão poder financiar as necessidades de infraestruturas à medida que o risco climático altera o mercado de obrigações municipais, ou como é que podemos modelar o crescimento se os mercados emergentes verem a produtividade cair devido ao calor extremo ou outros impactos climáticos.

“Os investidores a debruçar-se cada vez mais sobre estas questões e a reconhecer que o risco climático é risco de investimento”, adiantou. “Estas questões estão a conduzir uma profunda reavaliação do risco e do valor dos ativos”.

“E porque os mercados de capitais antecipam o risco futuro, vamos ver alterações na alocação do capital mais rápidas do que as próprias alterações climáticas”, explicou. “No futuro próximo – e mais cedo do que muitos antecipam – irá haver uma significativa realocação do capital”.

Governos, empresas e investidores

Larry Fink salientou ainda que nos próximos anos uma das grandes questões vai ser a escala e o âmbito da ação governamental sobre as alterações climáticas, como parte de um desafio que não pode ser resolvido “sem uma resposta coordenada e internacional dos governos, alinhados com os objetivos do Acordo de Paris”.

O gestor explicou que o esforço irá demorar décadas, mas sublinhou que, a par dos governos, as empresas e os investidores também terão um papel importante.

O presidente da BlackRock salientou a importância do disclosure, ou seja, que todos os investidores, reguladores, seguradores e o público em geral precisam de um retrato mais claro sobre como as empresas estão a gerir as questões relacionadas com a sustentabilidade.

“Com o tempo, as empresas e os países que não responderem sobre estes riscos de sustentabilidade irão enfrentar desconfiança crescente dos mercados e um custo de capital mais elevado”, vincou.

Fink revelou que no ano passado a gestora de ativos votou contra ou absteve-se de votos de 4.800 diretores de 2.700 empresas, salientando que se as empresas ou os boards não produzirem a informação ou o quadro de gestão sobre sustentabilidade a BlackRock irá responsabilizar os diretores.

“Dado o trabalho que já preparamos para fomentar o disclosure… vamos estar cada vez mais dispostos a votar contra gestores e diretores quando as empresas não estão a mostrar progresso suficiente na partilha da informação sobre a sustentabilidade e as práticas empresariais e planos subjacentes”, frisou.

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