Ambiente: visão, valores e missão

Este século terá que ser marcado por outro tipo de crescimento mais ambiental, mais ético e de mais justiça social. Temos que começar, a nível individual, a dar sinal de que estamos preparados, que queremos essa transição, que o sistema pode mudar.

Os discursos de Greta Thunberg, a miúda sueca que vai mudar o mundo, têm frases fortes: “Se dizem que a coisa mais importante do mundo são os filhos porque estão a hipotecar o nosso futuro?” e “A única coisa para onde precisamos de olhar é a curva de emissões. E lamento, mas ela continua a crescer.” O que podemos fazer? As empresas constroem de forma partilhada a visão, os valores e a missão que as regem. Poderia um exercício semelhante ser uma resposta para Greta e para os nossos filhos?

Visão

Ter imaginação e uma visão é fundamental no processo político, mas tendemos mais facilmente a concentrarmo-nos em problemas e dúvidas do que em sonhos. É importante construirmos visões partilhadas e acreditarmos nelas livres de potenciais constrangimentos e problemas. Feche os olhos e sonhe sem medo. Como seria o mundo em que gostaria de viver? Como é que queria que fosse a sua cidade? Consegue imaginar?

Ter uma visão para o futuro promove uma reflexão sobre onde estamos e para onde queremos ir. Estamos confrontados com um sistema profundamente insustentável e injusto e não sabemos bem como deixámos a situação chegar a este ponto. Os impactes das alterações climáticas já são uma realidade e só vão piorar. Se não soubermos em que mundo queremos viver é mais difícil determinar o caminho e os esforços necessários. Os obstáculos parecem maiores se não tivermos uma visão do que queremos.

É Greta que nos está a inspirar para trabalharmos numa visão partilhada e criativa que nos guie. Não é opção ficarmos parados a ver os impactes. A visão constrói-se com base nos nossos valores, não com lógicas e racionalidades que inibem a criatividade e impõem balizas. Um dia Martin Luther King disse “eu tenho um sonho” e com esta frase mudou o mundo, mas mudou-o porque as pessoas estavam prontas e preparadas para partilhar esse sonho. A discriminação racial tinha ultrapassado o aceitável e já perturbava muitos dos que estavam no lado do próprio sistema discriminatório. O sonho foi semeado em terreno que se tinha tornado fértil com os sonhos de tanta gente. Teria sido a mesma coisa se King tivesse dito “eu tenho um plano”?

Para combater as alterações climáticas, planos há muitos, e acordos, e tratados, e compromissos, e leis, e retóricas. Mas há uma obsessão em apenas fugir para a frente, em não mudar nada radicalmente, em continuar na trajectória do crescimento económico ilimitado. Enquanto o crescimento económico dominar o nosso imaginário político e financeiro, não há planos que nos salvem. Será que já há terreno fértil para alguém poder dizer “eu tenho um sonho” e com isso desencadear acções que lidem com as alterações climáticas a sério, e com as ameaças à biodiversidade, e com os plásticos no oceano, e com as desigualdades gritantes?

Além do movimento ambiental que há mais de 50 anos tem andado a sonhar creio haver dois indícios que nos dizem que estamos quase lá, que estamos preparados para sonhar em conjunto e criar uma visão para um mundo mais sustentável.

O primeiro foi a publicação do Papa Francisco de Laudate si, uma carta encíclica dedicada ao ambiente cujo mote era o cuidado da casa comum e cuja visão de ecologia integral propunha um mundo renovado a partir de uma humanidade redimida. Virtudes, valores, respeito, responsabilidade, gratidão, cuidado, amor, diálogo foram convocados para a ciência, para a política, para comportamentos individuais que nos levem para uma humanidade mais preocupada com a “casa comum”. O Papa Francisco inspira-nos a que em conjunto e em diálogo nos excedamos, nos elevemos, nos salvemos.

O segundo foi a publicação recente da Directiva relativa à redução do impacto de determinados produtos de plástico no ambiente. Os plásticos no oceano são um dos grandes problemas ambientais para o qual temos que actuar urgentemente. O que faz desta directiva especial, foi a velocidade em que foi pensada, conceptualizada, consensualizada, aprovada e publicada em comparação com outros processos tão mais lentos.

Tudo isto nos preparou para o fenómeno da miúda sueca. Greta é uma fonte de inspiração e conseguiu, tal como os 4 americanos que se sentaram contra a discriminação dois anos antes do discurso de Martin, inspirar toda uma geração e mais além. Os movimentos de jovens pelo mundo fora que apoiam Greta mostram que há uma geração acordada, exigente e que quer sonhar o seu futuro. Vamos sonhar com eles?

Valores

Estaremos preparados para que a qualquer momento alguém diga que outros valores, outras organizações sociais, políticas, económicas, e outras instituições nos levem a uma sociedade mais sustentável? A ideia da sustentabilidade não é especialmente inovadora, andamos há décadas a falar dela. Mas o mais importante é que a sustentabilidade já é um valor, um valor que pode ser estruturante de como nos podemos organizar como sociedade. Uma sociedade onde a responsabilidade e a justiça – social, económica, ambiental, intra-geracional, inter-geracional e espacial – dominem o mundo político, social e individual.

A ética contribui para dar mais espaço para se pensar e agir de um modo mais inovador, onde soluções alternativas poderão ser encontradas. O nosso comportamento relativo ao ambiente é permeável a motivações externas (legislação, incentivos ou desincentivos económicos), mas também a motivações internas, e estas são desenvolvidas através de uma consciencialização de que como consumidores, cidadãos, poluidores, temos um papel importante em toda a dinâmica ambiental. Respeitar, cuidar e ser responsável em relação ao ambiente pode também contribuir para a nossa formação de carácter, para uma “boa vida” e para um melhor ambiente. Como é que eu devo viver, quem é que eu quero ser, parecem ser as perguntas fundamentais para um investimento pessoal num estado mais responsável da forma como estamos no mundo.

Passámos séculos a lutar pelos nossos direitos, direitos civis, direitos políticos, direitos sociais, agora podemos focar-nos também nos deveres. Numa cidadania ambiental não lutamos apenas pelos nossos direitos ambientais (por ex. ar não poluído, água potável, tratamento de águas residuais, gestão de resíduos, saúde), mas deparamo-nos com a necessidade de reflectirmos também sobre os nossos deveres, as nossas responsabilidades (por ex. reciclagem, a mobilidade, questões sobre energia, consumo e de estilos de vida). Dentro dos nossos deveres, outro desafio é pensarmos na questão dos limites, que a natureza e os recursos são finitos, e que o estilo de vida da maioria dos cidadãos dos países ocidentais é insustentável e causa injustiças várias. Podemos considerar a sustentabilidade como um valor estruturante para o futuro?

Missão

Mudar o paradigma que equaciona crescimento económico com qualidade de vida implica uma mudança da prioridade que damos aos valores que têm sustentado a actividade política e económica das últimas décadas, quando passámos do “eu preciso” para o “eu quero”. O Estado investiu, por boas razões, em riqueza, crescimento e eficiência. A mudança que precisamos, implica que passe a investir em bem-estar, qualidade e suficiência.

O século passado assistiu a um crescimento da população, da saúde, da educação, da riqueza, do uso de recursos, da poluição, das emissões, dos mercados, do conhecimento. Este século terá que ser marcado por outro tipo de crescimento mais imaterial, mais ambiental, mais ético e de mais justiça social. Não é um processo fácil e terá uma fase de transição complicada e é por isso que temos que começar a nível individual, a dar sinal de que estamos preparados, que queremos essa transição, que o sistema pode mudar. Os custos sociais da recente crise económica e financeira (desemprego, pobreza, etc.) demonstram quão dependente está o nosso sistema do crescimento económico. Mas o desafio não parece ser continuar à procura de saídas neste sistema, mas encontrarmos alternativas.

Embora nem sempre tenham consciência disso, as pessoas comportam-se de modo diferente conforme o sistema político, económico e cultural onde se inserem. A natureza humana define-se num contínuo de características que vão de um extremo ao outro, de bom a mau carácter, de honesto a desonesto, de altruísta a egoísta e são muitas vezes as contingências externas que nos fazem ir mais para um lado ou mais para outro.

O sistema económico tem tendência a pensar-nos como seres individualistas, egoístas, competitivos, racionais e maximizadores de utilidade. E se assim nos pensa, nós assim nos comportamos. Uma empresa que não seja competitiva, não vinga no nosso sistema. Mas será que todas as empresas querem ser competitivas? Se o sistema económico pensasse em nós como seres morais, seres altruístas, relacionais, cooperativos, como estaria organizada a nossa economia? Quais seriam as instituições que nos regeriam, como se organizaria a nossa sociedade, como nos comportaríamos? Será que levaria a mais sustentabilidade, mais equidade, mais distribuição, menos pobreza, menos desemprego?

Feche os olhos e imagine o mundo em que gostaria de viver, depois acredite que isso não é apenas um sonho, é a visão, são os valores, é a nossa missão. É o ADN do futuro que teremos com os nossos filhos. Acredite, porque como disse Alexandria Ocasio-Cortez, a proponente do Green New Deal, a Greta, “a esperança é contagiosa”.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

Sofia Guedes Vaz assina este texto na qualidade de Autora do ensaio “Ambiente em Portugal”, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos

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