América, a direita que entorta

A “terra dos livres”, onde o Presidente ameaça desligar redes sociais por estas moderarem o seu discurso de ódio e violência, não é mais do que uma potência opressiva.

Será hoje, dia 10 de Junho, sepultado em Houston, no Texas, George Floyd, o cidadão norte-americano assassinado pela Polícia de Minneapolis, numa acção bárbara que desencadeou protestos naquela cidade, em todos os estados americanos e, finalmente, um pouco por todo o mundo. Só este ano, houve já 88 civis afro-americanos abatidos pela polícia.

É este o retrato judicial do suposto país mais desenvolvido do mundo. O país com mais milionários e bilionários do mundo, mas onde comunidades inteiras não têm acesso a educação de qualidade, saúde, segurança ou até mesmo água potável. Onde o primeiro trilionário do mundo não tem de pagar impostos, em parte porque uma faixa da população que recebe menos de 45 mil dólares/ano (os principais beneficiados com a criação de um sistema nacional de saúde gratuito e universal) acha que isso seria socialismo – e o socialismo é um cancro social, como se pode ver na Escandinávia.

É aqui que reside o principal problema da sociedade americana: a incoerência e a hipocrisia. E a direita republicana é o melhor exemplo disso.

Na América, a direita branca, conservadora e de classe média (a maioria habitando zonas não-urbanas, maioritariamente industriais e com pouca diversidade étnica) fala de “entitlement” (traduzido por “direito a”) para criticar a juventude millennial que defende uma saúde gratuita, um sistema de educação integrado e menos assimétrico, uma redução drástica das propinas do ensino superior que asfixiam as finanças pessoais de qualquer licenciado durante os 40 anos que se seguem à sua formatura.

Entretanto, esta mesma direita, descendente de europeus escorraçados do Velho Continente, a maioria sem sítio onde cair morta, acha-se agora dona daquele pedaço de terra expropriado a tribos nativas milenares, com “direito a” impedir a entrada de indivíduos em tudo semelhantes aos seus bisavós, excepto na cor da pele e língua falada.

A direita americana ultra-religiosa e evangélica, que vê em Francisco o Anticristo, é muito rápida a concentrar-se à porta das Planned Parenthood’s (Planeamento Familiar) de qualquer estado para humilhar e culpar mulheres que fazem abortos, mas recusa-se a condenar o assassinato de um afro-americano desarmado (e têm bastantes por onde escolher).

A direita republicana, que controla o Senado, tem como líder da maioria o Senador Mitch McConnell, que defende bail-outs para os estados republicanos em detrimento dos democratas, ignorando que o seu estado (o Kentucky) é um recebedor líquido de apoios federais, ao passo que, por exemplo, Nova Iorque ou a Califórnia, dois bastiões democratas, são contribuidores líquidos.

A direita americana louca por armas, que invoca sempre o direito consagrado na 2ª Emenda à posse e porte de armas para a constituição de “uma milícia bem regulada, necessária para a segurança de um Estado livre”, mas que fica em casa quando o Exército é chamado às ruas para atacar o seu próprio povo. É esta a direita americana, retrógrada, imoral, ignorante, egoísta e, sobretudo, hipócrita, que reflecte os valores profundamente deturpados de um povo que, fugindo da opressão institucional de uma Europa antiga e imóvel, recriou do outro lado do Atlântico uma versão social igualmente injusta, uns meros 350 anos depois.

A “terra dos livres”, onde o Presidente ameaça desligar redes sociais por estas moderarem o seu discurso de ódio e violência, não é mais do que uma potência opressiva com um complexo de herói vindo de derrotarem os Nazis (omitindo que eles próprios mantinham campos de concentração para nipo-americanos, como se ter raízes nipónicas os tornassem inimigos do Estado – basicamente, o que Hitler fez com os judeus).

É, pois, risível ouvir diplomatas americanos falar de Hong Kong e da opressão da China continental às manifestações naquela ilha, quando Trump queria invocar uma lei do século XIX (nunca antes usada e considerada por alguns peritos como inconstitucional) para enviar o Exército para as ruas. É de uma ironia monstruosa ler declarações de governantes com relações dúbias com a liberdade e direitos civis como Erdoğan ou Putin a condenar a actuação do governo norte-americano nestes protestos e saber que, independentemente dos seus telhados de vidro, estes têm razão.

Um documentário da National Geographic agora disponível na Netflix, “LA92”, sobre os motins em Los Angeles no seguimento da absolvição de quatro polícias brancos pelas bárbaras agressões a Rodney King, começa e termina com uma analogia a motins semelhantes nos anos 60 naquela mesma cidade: jovens negros desarmados agredidos por polícias brancos, sendo que, para estes últimos, as consequências profissionais ou legais são nulas.

Este é o país de Jim Crow, do KKK, das igrejas de ódio, do orçamento policial maior do que os da saúde, desenvolvimento comunitário e juvenil, combate à condição de sem-abrigo e conservação imobiliária combinados. Este é o país que quer policiar o mundo e ditar a política internacional, sem conseguir sequer equilibrar-se a si mesmo. Dizem que o mundo está perdido – e só se perderá mais enquanto a América não se encontrar. Por este caminho, mais vale começarmos a aprender mandarim.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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